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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Matérias // Um Resgate da Pesquisa Psicodélica Brasileira



Nomes internacionais e mundialmente reconhecidos como Albert Hoffmann, Stanislav Grof, Rick Strassman e Terence McKenna automaticamente nos remetem à contemporânea epistemologia das substâncias psicodélicas. A pesquisa científica nacional, no entanto, também contou, na década de 60, com frentes investigativas afins, que, infelizmente, parecem ter se apagado no tempo e ainda não foram capazes de provocar o retorno destas drogas aos laboratórios da modernidade
em território brasileiro.

// por Ciro MacCord

Durante a primeira grande onda de pesquisas sistemáticas sobre psicodélicos, a partir do final dos anos 40, compostos como o LSD (dietilamida do ácido lisérgico), a psilocibina (oriunda de algumas espécies de cogumelo) e a mescalina (encontrado em espécies de cacto como o peiote) representaram o descortinar de um novo cenário científico, principalmente para as áreas da Psiquiatria, Psicologia e Neurologia.

O fervor destas novidades atingiu diversos países onde uma série de pesquisadores aderiu à vanguarda científica em formação, e o Brasil foi um deles, embora muito timidamente. É difícil, no entanto, demarcar um ponto exato em que a pesquisa nacional se interou e começou a participar de tais estudos. Muito deste problema ocorre em função da inexistência de um banco de dados acessível onde as publicações destas pesquisas estejam catalogadas (tão pouco digitalizadas). Muitas referências, infelizmente, se perderam – tornando extremamente difícil a sua exploração.

Como provável cientista brasileiro pioneiro no trato das drogas psicodélicas, encontramos o psiquiatra Eustachio Portella Nunes, da Divisão de Pesquisa do Instituto Psiquiátrico da Universidade do Brasil, atual UFRJ. Portella Nunes desenvolveu, em 1955, uma investigação sobre a dietilamida do ácido lisérgico (LSD-25) a fim de determinar se a substância continha qualquer grau de especificidade quanto à natureza das psicoses. Para os testes clínicos, o psiquiatra administrou o fármaco em oito pacientes com diagnósticos psicóticos: 3 casos de esquizofrenia hebefrênica (caracterizada por intensos distúrbios alucinatórios, idéias delirantes e perturbação afetiva), 2 casos de esquizofrenia catatônica (caracterizada por distúrbios psicomotores e dificuldade de fala), 2 casos de transtorno bipolar (maníaco-depressivo) e 1 caso de delirium tremens (psicose associada à abstinência de drogas ou medicamentos).

O LSD-25, enviado pelos laboratórios Sandoz – onde o composto vinha sendo pesquisado desde a sua descoberta, em 1943 – foi aplicado por via intramuscular em testes com intervalos de uma semana entre as doses para cada paciente, e, para evitar efeitos sugestivos, foram administrados placebos (água destilada) nas primeiras avaliações. As observações dos casos e efeitos foram reportadas no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, através do artigo Investigações com a Dietilamida do Ácido Lisérgico, em 1955, onde Portella Nunes traçou uma análise dos resultados assim como delineou um breve resumo das pesquisas com LSD e mescalina desenvolvidas na época. Os seguintes trechos pertencem ao artigo:

(Descrição de caso) CASO I - M.A.S., leptossomática, 20 anos, remissão de quadro hebefrênico. 20 minutos após a aplicação de 60 microgramas de LSD começou a exibir variação rápida de humor, além de estranheza do mundo da percepção. Em momentos mostrava-se perplexa e nos inquiria sobre se não voltaria a existir como dantes, a tomar banhos, trocar de roupa, fazer as obrigações diárias. Julgava-se diferente, estranha, esquisita. Sentia dificuldade em verbalizar o pensamento na qual certas palavras e alguns temas perseveraram sem que se alcançasse o pleno sentido do que pretendia dizer. [...] Rapidamente variava de um humor angustioso e perplexo em que se mantinha a maior parte do tempo, para um riso que não parecia traduzir alegria e sim admiração ante o estranho. [...] A expressão é sempre difícil, as frases não alcançam sentido completo, palavras são repetidas numerosas vezes; reiteradamente voltam os mesmos temas [...]"

"(Descrição de caso) CASO 3 - A.D.B., atlético, 28 anos, remissão de quadro hebefrênico. Com LSD na dose de 70 microgramas. Decorridos 15 minutos da aplicação, refere sensação de leveza do corpo; recordação de cenas do passado em imagens rápidas, mas vivas e coloridas, ditas, pelo enfermo mesmo, como caleidoscópicas; sensação de bem-estar apesar da estranheza do mundo da percepção; por vezes, bloqueios do pensamento; inquietação motora, estado de consciência oscilante, com perplexidade.[...]"

"(Descrição de caso) CASO 5 - L.C., picnica, 16 anos, em remissão de psicose maníaco-depressiva - fase maníaca. Passados 20 minutos da injeção de 60 microgramas de LSD, sensação de frio e tremos das extremidades; salivação abundante e espumosa; diplopias; micropsias; sensação de estranheza do mundo da percepção; sentimento de encontrar-se em estado anômalo, absolutamente estranho e diverso de tudo quanto sentira antes; risos que a doente dizia não resultarem de sua vontade; clareza de consciência. [...]"

"(Conclusão) A dietilamida do ácido lisérgico faz reaparecer os quadros esquizofrênicos (excetuado o caso 5) aproximadamente com as mesmas características anteriores. [...] A LSD revelou certa polaridade esquizógena, pondo em marcha processos esquizofrênicos e condicionando sintomatologia esquizofreniforme mesmo em paciente que apresentara antes quadro maníaco."

"(Comentário) Este trabalho apresenta um aspecto interessante da LSD. A casuística, entretanto, é demasiadamente reduzida para permitir conclusões significativas. Isto é apenas uma preliminar e o autor vai continuar com suas observações."

Apenas depois de 6 anos encontramos um registro seqüente ao tema. O psiquiatra Paulo Luiz Vianna Guedes – patrono da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina – desenvolveu uma pesquisa clínica com seres humanos utilizando o LSD, cujo resultado foi publicado em 1961. Na investigação, intitulada Experiências com a Dietilamida do Ácido Lisérigico (LSD-25), o psiquiatra faz uma detalhada análise das possíveis vantagens psicoterápica oferecidas pelo LSD através de cinco aplicações do químico em um grupo de três pacientes: um caso grave de neurose histérica, um caso de esquizofrenia paranóide e um caso de neurose com caráter histérico.

Assim como Portella Nunes, Guedes recebeu o fármaco dos laboratórios Sandoz, entretanto, na forma de tabletes para consumo oral, cada um contendo 25 microgramas (milésimos de grama) da substância. O psiquiatra pôde observar uma série de efeitos nos pacientes que o levaram a confirmar o potencial do LSD como ferramenta de auxílio na prática psicoterápica. Entre as análises reportadas na publicação, podemos encontrar os seguintes trechos:

"(Descrição de caso) Modificações do esquema corporal – A negação de partes do corpo (não ter braços, não ter mãos), ou do corpo todo ("eu não existo") foi assinalada algumas vezes, bem como a sensação de estar diminuindo de tamanho e de se tornar "muito pequeno", "uma criança", conforme expressão dos pacientes. Um paciente perdeu, durante algum tempo, a noção da posição espacial do corpo e, por isto, queixava-se, a todo momento, de não saber para que lado estava a sua cabeça ou para que lado seu corpo estava virando."

"(Descrição de caso) Perturbações da experiência do ego – Embora nunca encontrássemos perda total da orientação quanto à pessoa, manifestaram-se comumente, em intensidade variável, francos sinais de despersonalização. Interessantes foram os casos em que paulatinamente se esfumavam os limites entre a realidade interna e a externa. [...]"

"(Conclusão) Como se vê, além das modificações várias no plano somático, a ingestão de ácido lisérgico, nas doses indicadas, provoca abundante sintomatologia psicológica, na qual ressaltam as modificações do ego, franca regressão com afloramento de mecanismos arcaicos: dissociação, identificações projetivas e introjetivas, negação. Interessante é o fato de que, mesmo durante o tempo em que está sob a ação da droga, o paciente conserva uma parte do ego que, com justeza, pode observar e descrever as modificações experimentadas por sua personalidade. Tal fato e a possibilidade de conservação, nos dias subseqüentes, da lembrança dos sucessos vividos, permitem obter, tempos depois, relatos muito fiéis da experiência.

Além dos aspectos acima aludidos, o que torna a experiência grandemente valiosa - e, talvez, aí residam as melhores propriedades da droga como auxiliar da psicoterapia - é o aparecimento, sob forma intensamente dramática, de situações e fantasias conflituosas infantis. Tal material surge, não como recordação histórica de algo passado, mas é repetido transferencialmente, sob grande intensidade afetiva, mostrando que ele - presente na atualidade do enfermo - é capaz de modelar sua conduta, dirigir seus sentimentos e interferir no seu contato com a realidade subjetiva e objetiva."

O artigo foi publicado também, no mesmo ano, na Revista de Psiquiatria do CELG – Centro de Estudos Luis Guedes, sob o título Sobre o Uso da Dietilamida do Acido Lisérgico (LSD25) Como Auxiliar da Psicoterapia.

No ano seguinte, em 1963, o psiquiatra Murilo Pereira Gomes, durante uma sessão de temas livres da psiquiatria no XV Congresso Nacional de Medicina, reportou uma pesquisa clínica também investigando os efeitos e possíveis potenciais terapêuticos do LSD. As observações geradas pelo estudo foram publicadas no periódico A Folha Médica (edição 46), em 1963, sob o título Configuração de uma Psicoterapia com o Uso do LSD-25. Os trechos a seguir pertencem ao artigo:

"(Introdução) Em setembro do ano passado, atendendo ao convite de um colega, tomei pela primeira vez a droga e, percorrendo com espírito crítico todo o intenso e dramático curso da experiência, percebi que se abriam de par em par as portas de um campo inteiramente novo e promissor que oferecia a possibilidade de compreender o modo de vivenciar o mundo e a sua patologia, o significado existencial da enfermidade e os caminhos de uma terapêutica por estes conhecimentos norteada. Logo pus-me a buscar toda a bibliografia disponível nos últimos anos [...] Soube, então, que a psicoterapia com LSD era o fascínio de certos grupos psiquiátricos de vanguarda, já tendo sida feita uma conferência em Princeton, 1959, sob a direção de Harold A. Abramsom, cujo relatório foi editado em livro, e um simpósio, o "I Simpósio Europeu sobre Psicoterapia à base de LSD-25", realizado em Göttinger, em 1960, sob a direção de Hanscarl Leuner, Chefe do Departamento de Psicoterapia da Clínica Neurológica da Universidade de Göttinger, Cadeira do Prof. Conrad.

[...]

Exatamente por ter iniciado o conhecimento da droga por uma auto-experiência e por já ter 350h de análise pessoal é que me filiei a esta última corrente. Pode-se discutir a validade ou pelo menos a utilidade do uso de uma droga elaborativa para auxiliar o trabalho psicoterápico, mas é do conhecimento de todos os especialistas em terapêutica psicológica que não são poucos os indivíduos portadores de distúrbios emocionais que oferecem dificuldades ao tratamento, não só não o aceitando a priori como também apresentando uma verdadeira muralha defensiva que impede ou dificulta a obtenção de resultados desejáveis."

"(Técnica) Em contacto com o paciente, procuramos os rumos a seguir no tratamento. Uma vez feita a indicação para a terapêutica do LSD-25, damos início a uma série de entrevistas psicoterápicas nas quais procuramos estabelecer uma relação médico-paciente favorável e tomar conhecimento das representações afetivas a fim de colher material que sirva de instrumento para o trabalho interpretativo durante a situação alucinatória. Certos de que estamos, tanto quanto possível, aptos para elaborar com segurança a comunicação do paciente, damos-lhe a droga e acompanhamos durante todo o tempo necessário.

A dosagem na primeira vez obedece ao critério de peso corporal e nas vezes subseqüentes guiamo-nos pelas respostas apresentadas aumentando ou diminuindo a mesma. A dose preconizada é de 1mcg por quilo de peso corporal. Os alcoolistas e esquizofrênicos costumam suportar grande doses sem manifestar reações.”

(Descrição de caso) Um paciente com conteúdos depressivos durante uma tomada informou que via e sentia como se dentro de si estivesse havendo uma "enxurrada de morro", descendo lama, cacos velhos, latas furadas, penicos enferrujados, "cocô de porco", trapos etc. Isto foi interpretado como a catarse de sentimentos auto-depreciativos e, quando em entrevistas posteriores se referia às dificuldades que sentia em sua vida, relacionava isto ao grupo dos fenômenos da "enxurrada do morro" e que antes da experiência não era capaz de identificá-las. E assim "enxurrada do morro" passou a ser um símbolo compreensível por mim e por ele, de um mundo interior depressivo.”

(Conclusão) A situação lisérgica "realiza" alucinatoriamente o mundo do inconsciente do indivíduo ao mesmo tempo em que o faz participar desta realização, como uma peça teatral, cômica ou dramática, e é exatamente por vivenciar o indivíduo a sua posição como personagem numa enorme peça que tem como palco a vida e personagens, ele, as sua figuras injetadas e os outros que compõem o seu grupo humano, captando a dinâmica das relações externas e internas, é que ele se sente, por assim dizer, informado ou instruído sobre a melhor maneira de realizar o seu plano de vida.

É verdade que destas experiências nasce uma outra dimensão da psicopatologia cujo estudo é um imperativo das descobertas realizadas, e que será oportunamente tratado com a profundidade necessária. Quero deixar claro que este trabalho visa apenas a comunicar o meu ingresso na pesquisa dos alucinógenos.”

Em 1964, nove anos após a (provável) primeira pesquisa nacional com psicodélicos, encontramos mais duas publicações sobre o tema: Sobre um Caso de Desdobramento da Personalidade Analisado com o Auxilio da Dietilamida do Ácido Lisérgico(LSD-25), do psiquiatra José Fraguas Neto, da USP (Universidade de São Paulo), e LSD-25, do psiquiatra Antônio Carlos Pacheco e Silva, doutor em Medicina do Departamento de Psiquiatria da USP. Sobre tais publicações, no entanto, o UltrAlice não conseguiu obter detalhes.

Podemos citar também o médico e químico José Elias Murad, mestre em Farmacologia e Ciências Médicas pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Segundo o relato do médico José Alarico Candioti, em um artigo intitulado LSD publicado em 2005, José Elias Murad, então professor de farmacologia na UFMG, submeteu-se a uma experiência clínica publicada com o ácido lisérgico em 1970. Mais uma vez, porém, o UltrAlice não conseguiu obter mais informações.

Temos ainda uma referência à uma pesquisa com LSD na análise da criatividade humana. O historiador da Medicina brasileira (também médico e filósofo) João Amílcar Salgado afirma que, nos anos 50, Santiago Freire, na época professor da UFMG, desenvolveu um experimento onde administrou doses do alcalóide em um grupo de artistas. O historiador, contudo, relata que não se sabe onde encontram-se os registros de tal investigação.

Como última referência, no sentido de resgatar o histórico científico nacional destas substâncias, temos o trabalho do químico e farmacologista Andrejus Korolkova, publicado em 1973 (após o momento em que os psicodélicos foram banidos do território científico na tentativa de bani-los da face da Terra pela política americana da Guerra às Drogas) na Revista Paulista de Medicina, sob o título Interação da Serotonina e Antagonistas com os Receptores. Korolkova desenvolveu uma investigação sobre a relação das substâncias psicodélicas com os receptores de serotonina – equação da qual resulta a teoria mais aceita sobre o mecanismo destas drogas no cérebro humano. O trecho a seguir pertence ao artigo:

(Conclusão) Serotonina vs. Alucinógenos: Os alucinógenos, também chamados psicotomiméticos, psicosomiméticos, psicogênicos, psicodislépticos, psicodélicos, misticomiméticos, ainda que de escassa aplicação terapêutica, apresentam grande interessa prático, pois produzem psicoses, algumas intensas, e são largamente consumidos, a ponto de o uso ilegal dessas substâncias constituir hoje em dia grave problema em alguns países. [...] Não se tendo esclarecido, ainda, as bases farmacológicas e fisiológicas da potência alucinogênica, não é possível formular uma teoria geral da alucinogênese. Há muito, todavia, notou-se o antagonismo entre o LSD e a serotonina, fenômeno este que pesquisas recentes têm confirmado. Conhece-se, igualmente, a tolerância cruzada entre LSD, psilocibina e mescalina. Daí ter surgido a hipótese de os alucinógenos atuarem sobre os mesmos receptores centrais que a serotonina, comportando-se como antagonistas competitivos destas.[...]”

A pesquisa psicodélica nacional teve uma vida supersônica se comparada aos registros e publicações reportadas em países como o Estados Unidos no decorrer de um extenso período. Certamente incide nesta questão o fato de os psicodélicos terem se disseminado, principalmente a partir do território norte-americano, com mais força entre os laboratórios internacionais apenas a partir da segunda metade da década de 50. Estas substâncias, apesar de estarem retornando definitivamente ao status científico após os quase 30 anos de proibição investigativa (ver matéria: O Renascimento da Pesquisa Psicodélica), não parecem, ainda, ter surtido efeito nos laboratórios brasileiros. Talvez o regime ditatório, que se iniciou em 1964, tenha sido um fator significativamente influente para uma espécie de silêncio irrecuperável sobre o tema, visto que estas drogas, como o LSD, além de protagonistas em uma pesquisa que envolveu artistas, ainda estavam culturalmente entrelaçadas à imagem dos mesmos.

domingo, 17 de maio de 2009

Matérias // O Renascimento da Pesquisa Psicodélica



Depois de mais de 20 anos condenados a uma silenciosa moratória científica, os psicodélicos dão claros sinais de que estão saindo das sombras destruidoras da desinformação para cair, novamente e com seriedade, nas rotas das pesquisas e investigações.

// por Ciro MacCord

Há aproximadamente 3 décadas as drogas psicodélicas foram completamente banidas dos laboratórios científicos, onde, pelas mãos de inúmeros especialistas de diversas áreas, representaram o descortinamento de novos horizontes nos estudos da psique, da mente e da consciência humana – além de apresentarem novíssimos potenciais terapêuticos. Antes que observações conclusivas pudessem ser construídas, antes mesmo do potencial destas pesquisas ser plenamente explorado, no entanto, os psicodélicos foram arrancados, à base de muita pressão e violência políticas, das mãos de uma vanguarda científica em pleno desenvolvimento.

A partir daí, o que se viu foi a morte repentina de uma série de programas oficiais dedicados ao estudo destas drogas. Linhas e linhas de pesquisas promissoras, de novos apontamentos e interconexões de informações foram imediatamente abortados. Os últimos projetos investigativos sobreviventes, entre eles o do Centro de Pesquisa Psiquiátrica de Maryland, nos EUA (do qual Stanislav Grof fazia parte), cederam, enfim, às exigências de uma nova política que viria a se disseminar internacionalmente – a conhecida War on Drugs (Guerra às Drogas)
inaugurada pelo governo americano no final da década de 60 como feroz resposta a um movimento que vinha questionando com grande força a direção da hegemonia capitalista americana – a Contracultura.

Em 1971, o LSD e outras drogas estavam absolutamente desconectados da ciência, e haviam se transformado, através das investidas governamentais, nas mais torpes substâncias já encontradas na face da terra, em detrimento de sua vasta contribuição e potencialidade de subsidiar importantes pesquisas e respostas. O LSD, por exemplo, foi posto ao lado de drogas devastadoras como a heroína nas escalas mundiais de danos, mesmo tendo sido provada a sua incapacidade de desenvolver relação de vício e mesmo os seus mecanismos de atuação no cérebro humano jamais terem sido completamente desvendados.

Durante 20 anos, aproximadamente, o que se ouviu foi um absoluto e agoniante silêncio sobre as drogas psicodélicas, ao mesmo tempo em que a política da Guerra às Drogas colhia as suas infindáveis frustrações: do narcotráfico ao abuso ilegal de substâncias que jamais parou de acontecer nos 4 cantos do planeta, e com mais intensidade – e quase que sarcasticamente, em território norte-americano. Os psicodélicos, durante este extenso período, deixaram o seu status de droga hippie para, definitiva e infelizmente, tornarem-se drogas recreativas firmemente estabelecidas entre os jovens até os dias de hoje. E após o nascimento da cultura eletrônica eles tomaram força ainda maior no convívio ilegal e inconsciente com as populações ao redor do planeta.

Hoje, no entanto, e para a satisfação da investigação honesta, estas drogas têm retornado, vagarosamente, ao status de escopo científico reconhecido. Como ponto de partida deste renascimento podemos citar Rick Strassman, um pioneiro psiquiatra americano, pesquisador na área clínica de psicofarmacologia. Strassman foi o primeiro cientista a obter permissão do FDA norte-americano (Food and Drug Administration), após 20 anos, para desenvolver estudos científicos clínicos com psicodélicos. Particularmente interessado nas potencialidades do DMT (dimetiltriptamina), uma poderosa substância psicoativa e princípio ativo de bebidas sacramentais
como a ayahuascautilizadas há séculos por tradições xamânicas, Strassman iniciou, em 1990, uma investigação sobre as implicações da substância na mente humana, assim como potencialidades terapêuticas e relações entre os estados alterados desencadeados por ela e os desencadeados em universos religiosos e transcendentais.

O DMT é uma substância endógena (produzida pelo próprio corpo) do cérebro humano, produzida em baixas doses, e este dado foi promissor na conexão de informações sobre os processos bioquímicos cerebrais ligados a estados não comuns de percepção, como experiências de quase morte, processos oníricos, êxtase religiosos, estados meditativos, práticas xamânicas, entre outros.




Strassman publicou boa parte de suas investigações e experimentos biomédicos com DMT na obra DMT: The Spirit Molecule (sem tradução no Brasil, DMT: A Molécula Espiritual), e continua sua jornada por respostas e busca de um novo panorama científico à cerca dos psicodélicos. O psiquiatra já trabalhou também com outras substâncias como a psilocibina – princípio ativo dos cogumelos pertencentes ao gênero Psilocybe.

Após o pioneirismo de Strassman, as portas, antes definitivamente trancadas à entrada dos psicodélicos nos meios científicos, deixaram um pequeno vão para que posteriores linhas de pesquisa pudessem ocorrer. David E. Nichols, um importante químico farmacologista americano e considerado, atualmente, uma das maiores referências mundiais na pesquisa psicodélica, pôde retornar à investigação do LSD e dar continuidade a estudos que vinha desenvolvendo desde o final dos anos 60. Nichols é responsável por uma série de artigos publicados onde procura identificar os mecanismos cerebrais desencadeados pela adição de drogas como o ácido lisérgico, a mescalina e o MDMA (um tipo de anfetamina com propriedades psicodélicas; ecstasy), e tem sido, nos últimos 15 anos, uma importante influência para o estabelecimento dos interesses científicos no universo dos psicodélicos.

Além dos alcalóides clássicos – mescalina, LSD, psilocibina e DMT, outras substâncias tem sido abarcada no grupo de agentes psicodélicos – entre elas a quetamina, um anestésico dissociativo. A quetamina tem se tornado a protagonista de uma diversidade de estudos sobre propriedades terapêuticas em seres humanos. Investigações promissoras, como a desenvolvida pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, em 2006, ou pelo psiquiatra russo Evgeny Krupitsky, têm apontado para efeitos positivos no tratamento de distúrbios psíquicos como a depressão.

Ainda em 2006, dois estudos, desenvolvidos pelo psiquiatra Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, e pelo neurocientista Roland Griffths, da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, resultaram em dados animadores sobre os efeitos clínicos da psilocibina. Estas pesquisas, que adminstraram doses do alcalóide oriundo dos cogumelos do gênero Psylocibe em pacientes saudáveis e em voluntários diagnosticados com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), relataram mudanças de humor e percepção de mundo positivas no primeiro caso, e redução dos sintomas nos pacientes no segundo. Outro estudo à cerca da psilocibina, desenvolvido pelo psiquiatra Charles Grob, da Universidade da Califórnia, ainda apontam para efeitos promissores na redução do stress e dor em pacientes com câncer em fase terminal.

Recentemente, também, outro psiquiatra norte-americano, Michael Mithoefer, iniciou uma investigação do MDMA em casos de ansiedade e stress pós-traumático. Além dos estudos citados, substâncias como a ibogaína, quetamina, psilocibina e DMT também vem sendo investigadas, em diversos países, no tratamentos de dependências químicas como o alcoolismo.

Há pouquíssimo tempo, em julho de 2008, finalmente foram permitidos estudos humanos com LSD nos laboratórios Suiços. O psiquiatra Peter Gasser obteve autorização do governo suíço – através do auxílio da iniciativa da MAPS (Associação Multidiciplinar para Pesquisas Psicodélicas), para iniciar uma pesquisa das propriedades terapêuticas do LSD em pacientes com quadro clínico próximo da morte. Atualmente, encontramos também uma frente de pesquisa utilizando o LSD e a psilocibina, liderada pelo psiquiatra John Halpern, na Universidade de Harvard. Halpern está investigando o uso destes alcalóides no tratamento de enxaquecas, e os resultados devem ser publicados ainda este ano.

Indo de encontro às satanizadas preconizações alçadas aos quatro ventos pela política proibicionista e violenta da Guerra às Drogas, os psicodélicos tem demonstrado, nos últimos anos e em inúmeros casos, utilizações positivas e eficazes em tratamentos psicoterapêuticos e psicanalíticos, assim como na investigação da consciência humana. Um importante momento de lucidez científica parece ir, aos poucos, retirando os psicodélicos das escuras masmorras da falta de informação e do desconhecido, para enfim trazê-los à luz do conhecimento sincero e, acima de tudo, francamente interessado em expandir seus horizontes e desafiar os grandes mistérios do conhecimento humano.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Personalidades // Stanislav Grof: Da Psicoterapia com LSD à Psicologia Transpessoal



"Nosso universo, que parece englobar um número incontável de entidades e elementos diferentes, apresenta-se, então, como um único ser, de imensas proporções e complexidade inimaginável."

Stanislav Grof é um psiquiatra tcheco (Praga, 1931), radicado nos Estados Unidos desde 1967, que desenvolve uma vasta e rica pesquisa de mais de 5 décadas sobre as implicações dos estados alterados de consciência (provocados ou não pela ingestão de substâncias psicodélicas) nos processos de análise, cura e comportamento humanos (terapia). Grof já publicou 16 livros através dos quais tem divulgado os resultados das incontáveis observações clínicas de sua moderna pesquisa da consciência, e estas publicações trouxeram uma série de profundas implicações para as áreas da Psiquiatria e Psicologia.

Grof iniciou sua investigação da consciência em 1956, no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Praga. Ele, um residente recém-formado em medicina, e sua equipe receberam, do Laboratório Sandoz, baseado na Suiça, uma caixa cheia de frascos contendo uma novíssima substância recém sintetizada pela primeira vez na história: o composto Dietilamida do Ácido Lisérgico, LSD. Grof era um voluntário na pesquisa da nova substância, e à Sandoz interessavam múltiplos estudos e investigações sobre uma droga que já causava um grande rebuliço e forte interesse pela comunidade científica. A sua notável potência enquanto alterador psíquico era algo novo e desafiador.

Grof, como voluntário, submeteu-se ao LSD em uma experiência que modificou radicalmente suas dimensões e interesses profissionais. Ele a cita como uma experiência indescritível e esmagadora de consciência cósmica, através da qual pôde vivenciar a sensação de desligar-se do ego, do estado ordinário das coisas em que o fim material de um elemento termina onde começa a matéria do outro, e experienciar a unicidade de todas as coisas. Este experimento bastou para que Grof se interessasse com afinco pelas questões dos estados alterados de consciência e iniciasse uma intensa e honesta busca por respostas que cruzassem tais estados com as potencialidades terapêuticas e os frios e cartesianos domínios da ciência.

Grof iniciou um programa de estudos sobre o potencial terapêutico e implicações do LSD na consciência e comportamento humanos no departamento em que trabalhava, até mudar-se, em 1967, para Baltimore, nos Estados Unidos, onde participou do último programa de pesquisa psicodélica sobrevivente, no Centro de Pesquisa Psiquiátrica Maryland. Nesta época o LSD foi terminantemente proibido em território americano e banido, arbitrariamente, dos laboratórios da ciência. Este momento marcava o início de uma violenta política pública, conhecida como "Guerra às Drogas", que veio a enclausurar toda a promissória pesquisa e investigação das substâncias psicodélicas em uma penosa moratória científica que perdurou por mais de 30 anos.

Nos anos seguintes Grof desenvolveu, então, uma novo processo através do qual seus pacientes poderiam se submeter a estados alterados de consciência sem a utilização de agentes exógenos (substâncias não produzidas pelo próprio corpo). Este novo processo veio a ser conhecido como Respiração Holotrópica: uma técnica respiratória capaz de produzir efeitos semelhantes às experiências e transes desencadeados pela ingestão de drogas como o LSD. O momento da interrupção das pesquisas com psicodélicos, apesar de condenar uma série de promissores estudos científicos, foi, no entanto, propício para que outros tipos de informação e cruzamentos de dados ocorressem. Verificou-se uma similaridade espantosa entre a experiência produzida por psicodélicos e os milhares de relatos, históricos ou atuais, sobre vivências místicas e transes religiosos experimentados pelos mais distintos universos ligados ao conhecimento transcendental.



Os estados alterados de consciência, através da utilização de drogas, meditação, respiração holotrópica, música tribal ou qualquer outro processo, representavam um aspecto muito mais profundo e complexo do que se imaginava. As experiências vividas pelo ser humano, nas mais diversas épocas e nos mais diversos lugares, escondiam por trás de seu aparente misticismo e sobrenaturalidade, algo que a ciência, até o momento, havia deliberadamente confinado no duvidoso mundo das fantasias, lendas, do pensamento mágico primitivo, e pior, das patologias. Diante dos olhos científicos, até então, xamãs e santos poderiam facilmente se encaixar em quadros clínicos psicóticos - de esquizofrênicos a neuróticos, e a ciência jamais atentou sua visão investigativa com honestidade e sofisticação para o que sempre representou um processo natural e legítimo do ser humano: sua busca e sua vivência rica e idiossincrásica por aquilo que parece existir para além da consciência ordinária e do ego material definido pelos nossos corpos, processos orgânicos e biológicos.

Nascia, a partir de todos estes questionamentos e da pioneira investigação destes estados através da utilização de drogas psicodélicas, um novo braço da Psicologia. Conhecida como a "quarta força", posterior ao Comportamentalismo (Behaviorismo), à Psicanálise Freudiana e à Psicologia Humanista, a Psicologia Transpessoal emergiu com uma intensidade capaz de expandir os horizontes sobre a investigação do ser e da consciência humana. Apesar de a ciência clássica - cartesiana-newtoniana mecanicista, não receber novos e ousados paradigmas com calorosas boas-vindas, a Psicologia Transpessoal passou a se comunicar amigavelmente com diversos outros tipos de ciência, como a Física Quântica, apesar de leitura quântica clássica permanecer materialista e reducionista. A Psicologia Transpessoal emplacou como ciência reconhecida e sua constante investigação continua avançando sobre as obscuridades da consciência e psique humanas.

O próprio Albert Hoffman - sintetizador do LSD, foi um grande entusiasta de Grof, revelando que o psiquiatra talvez tenha sido quem melhor soube conduzir as investigações sobre as implicações do uso dos Psicodélicos na busca por respostas sobre a misteriosa mente humana e a psique. Hoffman chegou a declarar que, se ele é o pai do LSD, Grof certamente é o padrinho.

Grof aborda uma variedade de temas cruzados através dos estudos da Psicologia Transpessoal, além de inúmeros relatos sobre suas pesquisas na área da psicoterapia com LSD e da respiração holotrópica, em suas diversas publicações (inclusve em co-autoria com sua esposa, Christina Grof), no entanto apenas algumas destas obras foram traduzidas para a língua portuguesa: Além do Cérebro, Emergência Espiritual, A Tempestuosa Busca do Ser, A Mente Holotrópica, Além da Morte, A Aventura da Autodescoberta, Jogo Cósmico e Psicologia do Futuro.

Links:
Site Oficial de Stanislav Grof
Psicologia Transpessoal no Wikipedia

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Filmes & Vídeos // LSD: The Beyond Within (documentário da BBC, 1986)



LSD: The Beyond Within, o que pode ser traduzido por algo como LSD: Além do Interior, é um documentário produzido pela emissora britânica BCC, que foi ao ar pela primeira vez em 1986. O documentário é um rico recipiente de informações e fatos sobre a história da substância, desde a sua descoberta pelo químico suíço Albert Hoffman, na primavera de 1943, até a sua "queda", após o ácido escapar dos laboratórios científicos, cair no cotidiano dos milhares de jovens durante as movimentações da contracultura e ser finalmente proibido em todos os territórios mundiais assim como para a própria pesquisa científica.

O interessante desde documentário é a sua capacidade de analisar a história do LSD sob uma ótica imparcial, dando voz tanto àqueles que o consideram uma poderosa droga potencialmente positiva para as pesquisas científicas, a investigação da mente e a evolução da consciência humana na sua percepção e relacionamento com o mundo e a natureza, assim como àqueles que a consideram uma perigosa substância capaz de alienar o comportamento e produzir danos em função das tão faladas más viagens (bad trips).

O documentário se divide basicamente em dois momentos. O primeiro é o da descoberta da Dietilamida do Ácido Lisérgico e sua entrada definitiva para os laboratórios científicos da química, neurologia e ciências humanas (principalmente a psiquiatria) após a identificação de efeitos psíquicos potentes que representavam misteriosos processos na mente e no comportamento. Tais efeitos chamaram grande atenção da sociedade científica, e, a partir deste momento, um montante de informações brotaram em livros, artigos, teses, estudos e experiências.

O segundo momento já nos mostra o momento conturbado da história desta substância, que inicia-se com a disseminação do uso do ácido entre grandes populações e os consequentes danos causados pelo uso inconsciente e abusivo livre do apoio ou monitoramento científico. Foi a partir daí, conciliando tal realidade com a "inconveniência" de um movimento que pretendia lançar mão da superficialidade humana do consumo e do american way of life (na época minado pela falta de perspectivas em um desastroso pós-guerra) que o governo rebaixou o LSD ao status atual de substância proibida internacionalmente e combatida pelas políticas públicas em todo o mundo.

O próprio Albert Hoffman é quem mais leva a narrativa, explicitando as potencialidades da sua criação que, anos depois, veio a assustar muita gente. Outros cientistas e grandes personalidades da época aparecem dando uma série de entrevistas e relatos da época: Ronald Sandison, pioneiro na pesquisa terapêutica do LSD (terapia psicolítica); Humprey Osmon, cunhador do termo "psicodélico" e quem supervisionou o político Christopher Mayhew em um teste com mescalina televisionado em 1955; Aldous Huxley, o famoso autor de As Portas da Percepção; Christian Swinburn, professor de filosofia da religião; John Marks, o homem que revelou ao mundo o MKULTRA (programa de pesquisa com LSD da CIA para estratégias de guerra); Ken Kesey, autor de "Um Estranho no Ninho" e talvez o homem que mais tenha advogado o uso de LSD entre os jovens durante a época da contracultra, entre outros.

Não existem legendas em portugês para o documentário, tão pouco é possível encontrar o VHS desta raridade em locadoras. Portanto, para divulgar materiais que considero enriquecedores para a cultura e conhecimento, estou disponibilizando o link para download do filme.

LSD: The Beyond Within (2 arquivos, mp4, 268mb, 122min): http://www.megaupload.com/?d=6Z6UDS25