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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Matérias // Psicodélicos e Recreatividade: As Problemáticas e Riscos do Uso Ilícito


É preciso, antes de tudo, reconhecermos que o uso ilícito de psicoativos ocorre nos mais variados locais e pelos mais variados grupos e através de distintas famílias de químicos: entre elas, as substâncias psicodélicas. Apesar de agirem muito diferentemente de drogas estimulantes como a cocaína e o crack e de drogas depressoras como o álcool, os psicodélicos também incidem em danos à saúde pública. Mas de que forma estes riscos se apresentam? E de que maneira as lesões provocadas pelo abuso e uso inconsciente podem ser efetivamente reduzidas?

// por Ciro MacCord

Durante os anos 60, atamancados na efervescência da Contracultura, os psicodélicos disseminaram-se entre vastas populações, sobretudo de jovens, os principais proponentes do Movimento Hippie – um movimento que, diante do ecatômbico panorama da guerra e de uma completa escassez de perspectivas, procurava questionar a hegemonia capitalista norte-americana, criticando ferozmente a capenga tentativa de suprimir a desesperança do povo através de gadgets inacabáveis e novidades tecnológicas para o conforto. O sonho americano estava sendo mostrado às avessas.

Nesta dinâmica de grandes mudanças sociais e um fluxo que pretendia se finalizar na ruptura, os psicodélicos representaram uma espécie de motor de auxílio. Tais substâncias, até então pertencentes aos domínios da ciência e às mais novas vanguardas que investigavam principalmente o comportamento, o cérebro e a consciência humana, despiram-se da imagem de alcalóides promissores na pesquisa clínica e respostas à natureza do ser e da percepção para tornarem-se o produto do propagandismo hippie que dizia que estas drogas expandiam a mente.

De certa forma, tal propagandismo baseava-se em experiências verídicas e opiniões compartilhadas: parte dos jovens que propuseram o movimento da Contracultura haviam se voluntariado anteriormente para experimentos clínicos com substâncias como o LSD, inclusive para o programa investigativo da CIA, o MKULTRA, que procurava estabelecer estratégias químicas de guerra ou uma busca pelo tão desejado soro da verdade. O insucesso dos testes para a guerra, no entanto, não foi capaz de apagar as experiências profundas e transformadoras vivenciadas pelos voluntários, que, ao juntarem-se a alguns cientistas que abandonaram o caráter acadêmico em função de um certo deslumbre pelos psicodélicos, como o psicólogo Timothy Leary, formaram a base do Movimento Hippie.



Este momento representou o trágico escape das substâncias psicodélicas dos domínios científicos: a disseminação do uso indiscriminado e inconsciente destas drogas significou o fim absoluto das pesquisas clínicas que mergulhou tais químicos em uma moratória científica de aproximadamente três décadas. Durante os anos 60, substâncias como o LSD popularizaram-se até mesmo mais do que a própria maconha (THC) e milhares de jovens e adultos entraram em contato íntimo e direto com os fármacos.

Entrava em cena, pela primeira vez na história dos psicodélicos, o uso recreativo destas substâncias – e de forma massiva. Até então tais drogas já haviam desenvolvido importantíssimos papéis na cultura e religiosidade, como no universo dos povos pré-colombianos, e também, de forma muito expressiva, no mundo científico, mas a sua significância enquanto aspecto modificador da esfera social em larga escala era novidade.

A disseminação do uso recreativo de drogas como o LSD e psilocibina, no entanto, denunciou uma série de riscos e perigos que jamais se apresentaram sob o olhar da religião ou da ciência e, ao contrário do que se supõe inicialmente, não diziam respeito a danos fisiológicos ou dependência, mas sim ao frágil equilíbrio da psique. Estudos sobre os riscos físicos apresentados, como os do químico suíço Albert Hoffman para o LSD, provaram e continuam provando que a toxicidade cerebral destes alcalóides é baixa e que eles não possuem mecanismos capazes de gerar dependência física, ou seja, os riscos fisiológicos não são capazes de acarretar distúrbios orgânicos ou provocar overdose, mas podem apresentar-se como drogas devastadoras no aspecto psíquico.

O grande perigo reside no fato de que os efeitos psíquicos apresentam-se de forma extremamente variada e provocam experiências imprevisíveis e subjetivas: elas podem mergulhar o usuário tanto em uma vivência de êxtase e expansão consciencial como também em uma vivência aterradora de medos profundos, paranóia e pânico (má viagem, bad trip). Os psicodélicos desencadeiam experiências intensas de alteração de percepção, e a natureza das “jornadas”, diferentemente do que se crê, vai muito além do aspecto visual: ela ultrapasse os limites do próprio corpo e pode provocar novas sensações que concernem à natureza do próprio ser e da consciência. Estes efeitos, jamais observados em outra família de fármacos, apresentam-se de maneira profunda e submergem o usuário, vertiginosamente, em um mundo de percepções estranhas e irreconhecíveis, e é aqui que reside o risco: o despreparo e a falta de monitoramente científico ou religioso no trato com estas modificações tão bruscas podem causar severas marcas na psique humana.



Além deste fator, outra característica única dos psicodélicos, e que também incide nos perigos do uso recreativo, é a capacidade de provocarem um efeito conhecido como psicolítico: liberação de conteúdos reprimidos, traumas, motivações afetivas e reconhecimentos dos porquês da personalidade na forma de revivências e experiências de catarse.

Tais efeitos, que se sobrepõe terminantemente aos os efeitos fisiológicos – dilatação das pupilas, aumento da pressão sanguínea e efeitos eméticos variáveis (vômito) – decorrem de maneira segura sob o monitoramento científico ou na prática religiosa: universos onde o reconhecimento destas substâncias e o uso consciente e o conhecimento prévio são determinantes. Já no uso recreativo, iniciado nos anos 60 e definitivamente estabelecido com o nascimento da cultura da música eletrônica a partir das décadas de 80 e 90, eles decorrem de forma aleatória e ameaçadora: a ignorância, o uso abusivo e a total ausência de monitoramento podem transformar os efeitos profundos em altos riscos para a saúde mental. Torna-se fácil imaginar as decorrências negativas das alterações intensas e efeitos psicolíticos em um usuário recreativo que não possui nem mesmo idéia da natureza daquilo que ingere.



Estudos como o do psiquiatra norte-americano Sydney Cohen, em 1960, procuraram estabelecer porcentagens relativas a estes danos. Cohen contou com dados de 44 pesquisadores da época que investigavam substâncias como o LSD e a mescalina clinicamente, casos de administração que somavam aproximadamente 25.000 doses em 5.000 voluntários. Cohen concluiu que, sob condições médicas apropriadas e preferencialmente trabalhando-se com voluntários saudáveis (trabalhou-se bastante com pacientes psicóticos), a pesquisa psicodélica não oferecia risco. Em 69, o psiquiatra britânico Nicolas Malleson, apesar de porcentagens um pouco maiores, chegou a conclusões similares.

A forma com que estes danos se apresentam, no entanto, ainda representam mistérios científicos. A partir do momento em que estas drogas espalharam-se em grandes populações e a sua utilização recreativa foi amplamente advogada, no decorrer dos anos 60, surgiram relatos sobre psicoses permanentes provocadas pela ingestão e até mesmo de suicídios desencadeados por este uso. A grande questão estabelecida nos laboratórios era: estas drogas provocam o despertar de estados psicóticos latentes e geneticamente herdados ou possuem a capacidade de gerar, por si próprias, estados psicóticos permanentes?

Estudos que procuravam quantizar estes danos, como os dos psiquiatras Sydney Cohen e Nicolas Malleson, no entanto, tornaram-se de extrema dificuldade a partir do final dos anos 60, quando os psicodélicos foram proibidos nos territórios mundiais e inclusive retirados, à força e de maneira arbitrária, das mãos da ciência. Estimou-se que um quarto dos americanos que haviam experimentado o LSD, por exemplo, sem monitoramento científico, experienciaram as conhecidas más viagens (bad trip): um evento preocupante no que diz respeito aos danos psicológicos severos desencadeados pelos psicodélicos.

A hipótese mais aceita no meio científico é a de que estes acalóides, ao provocar tais danos severos e a longo-prazo, na verdade, dão uma espécie de clique em quadros psicóticos pré-existentes, latentes e herdados. Mas enquanto a ciência não é capaz de responder com exatidão a certas perguntas e mesmo que procuremos agir com dissimulação, o uso recreativo e ilícito de drogas com o LSD, hoje, representam uma perigosa verdade social: se a violência de um proibicionismo sedimentado em um tabu generalizante não é capaz de lidar com a natureza complexa e com os riscos apresentados pelos psicodélicos, como diminuir tais danos?

As políticas de redução de danos tem tomado força nos últimos anos, mas também tem sofrido o ataque conservadorista que as consideram uma espécie de apologia. A questão é simples: ou reconhecemos que as políticas públicas de segurança não são capazes de sanar a problemática das drogas e que estas drogas precisam ser discutidas e compreendidas pela sociedade como um todo ou fingimos que tais drogas não existem e que os danos por elas provocados são meras manifestações do além.



A política meramente proibicionista presume-se total, mas acaba por mergulhar no reducionismo do universo das drogas: ela anula todas as demais implicações – saúde pública, história, religião e até mesmo a própria ciência – e procura estabelecê-las dentro de uma única problemática: a da segurança pública. Esta incompetência, ao contrário do que presumem as frentes conservadoras, pode ser positivamente transformada pela incorporação de políticas públicas de redução de danos: estas políticas estendem-se da disseminação da informação correta e sincera até o universo da educação, onde denunciam o completo despreparo das instituições em instruir a população, de maneira honesta, sobre os riscos reais das drogas e sobre a diferença abissal entre os grupos de psicoativos.

Neste contra-fluxo encontramos iniciativas como as da MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos), que produz material anti-desinformação de alcance público e que segue diretrizes de políticas de redução de danos na questão das substâncias psicodélicas. Como um bom exemplo, temos o vídeo Lidando com Experiências Psicodélicas Difíceis, através do qual especialistas procuraram definir princípios gerais de como auxiliar alguém que está vivenciando uma má viagem (bad trip) e de como esta abordagem pode ser determinante para a diminuição de possíveis danos para o usuário. Como dito no próprio vídeo: psicodélicos são utilizados por variados motivos e por variados grupos sociais, você pode encontrar alguém próximo sob efeito de um psicodélico em alguma altura da vida.

A recreatividade no mundo dos psicodélicos oferece riscos muito distintos de outras famílias, como a dos estimulantes e a dos depressores, e há muito despreparo e falta de informação neste trato. É preciso que se discuta o uso, a natureza e os riscos destas drogas nos ambientes familiares, escolas e rodas de amigos, do contrário os danos irão continuar incidindo em um submundo que se passa debaixo dos nossos próprios narizes e sob os nossos olhos hermeticamente fechados.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

As Drogas // Psilocibina: o Sangue Azul dos Cogumelos


Por trás dos famosos cogumelos mágicos, tema recorrente sobre as tais viagens sem volta, existe uma intensa substância impregnada por uma rica história ancestral. Muito antes das psicodélicas histórias de Alice, onde uma simples mordida em um cogumelo era capaz de expandi-la a tamanhos imensuráveis, a psilocibina representava a divindade capaz de expandir não as medidas, mas a consciência através de realidades sagradas.

A psilocibina (O-fosforil-4-hidróxi-N,N-dimetiltriptamina) – alcalóide pertencente à família das triptaminas – é um poderoso composto psicodélico encontrado naturalmente em uma diversidade de espécies de cogumelo dos gêneros Psilocybe (ao qual pertence o antigo gênero Stropharia), Conocybe e Panaeolus (Copelandia), das quais o Psilocybe cubensis e o Psilocybe mexicana são as mais conhecidas. Estas espécies, muito distintos da imagem clichê do cogumelo vermelho com manchas brancas (Amanita muscaria, que será abordado no tema das drogas muscarina e escopolamina) são geralmente encontradas na América Central e México, mas podem também ser verificados em outras regiões do globo, principalmente nas localizações equatoriais e tropicais, visto que algumas espécies possuem comportamento cosmopolita.


O químico foi descoberto em 1953 por Gordon Wasson, um autor e pesquisador russo que desenvolveu uma série de contribuições para os campos da botânica e antropologia. A psilocibina é um psicodélico relativamente novo, em termos científicos, visto que a sua entrada nos laboratórios foi posterior à descoberta de outras substâncias como a mescalina, 60 anos antes, e do LSD, anterior em uma década. Cinco anos após a identificação por Wasson, Albert Hoffman, o famoso químico descobridor do LSD, foi o primeiro cientista a isolar o princípio ativo e a descrever sua estrutura molecular: o alcalóide de coloração azulada, na verdade eram dois deles e extremamente similares, foram batizados de Psilocibina e Psilocina, em alusão ao gênero Psilocybe: palavra de origem grega que significa cabeça (cybe) pelada (psilos). Os resultados, obtidos por Hoffman em colaboração com dois colegas (A. Brack e Dr. H. Kobel) e um professor (Roger Heim), foram publicados, em março de 1958, em nota no jornal científico Experientia. Os mecanismos de ação, em fato, devem-se a um princípio único, visto que a psilocibina converte-se em psilocina dentro do próprio corpo através de um processo chamado desfoforilação, mas os dois compostos são naturalmente encontrados nos cogumelos, sendo o primeiro deles verificado em maior porcentagem.

Posteriormente, em parceria com outros quatro colegas (A. J. Frey, H. Ott, T. Petrzilka e F. Troxler), Hoffman descobriu a síntese da psilocibina, cuja fórmula foi patenteada em 1963. Os resultados da pesquisa foram publicados em dezembro de 1958, também no jornal Experientia. A substância foi identificada como similar a outros químicos com o LSD, cujos intensos efeitos psíquicos denunciavam a urgência de novas frentes de pesquisa. A psilocibina entrou, decisivamente, para a família daqueles estranhos e misteriosos alcalóides que vinham desafiando a percepção sobre a natureza da mente humana. A partir da descoberta da sintetização, os laboratórios Sandoz, para o qual Hoffman trabalhava, passaram a disponibilizar a substância, assim como o LSD e outros psicodélicos, para as novas frentes de pesquisa que se disseminavam no início dos anos 60, principalmente norteados pelas vanguardas investigativas da Psiquiatria e Neurologia.

Em 1959, a psilocibina já se tornava a protagonista de uma série de estudos científicos, principalmente relativos à prática psicoterápica auxiliada por psicodélicos. Uma pesquisa francesa, liderada pelo médico Jean Delay, intitulada Les Effets Psychiques de la Psilocybine et les Perspectives Thérapeutiques (Os Efeitos Psíquicos da Psilocibina e as Perspectivas Terapêuticas), administrou a psilocibina em 13 pacientes saudáveis e em 30 pacientes diagnosticados com desordens mentais e concluiu que a substância, menos alucinógena que a mescalina e menos intensa que o LSD, possuía um significativo potencial enquanto ferramenta terapêutica. No mesmo ano, Delay, pioneiro na pesquisa sistemática da psilocibina nos domínios psiquiátricos, deu continuidade à investigação, publicando o artigo Premiers Essais de la Psilocybine en Psychiatrie (Primeiros Ensaios da Psilocibina na Psiquiatria), onde conclui que a substância, enquanto auxiliar psiquiátrico, é capaz de provocar melhor acessibilidade aos conteúdos do paciente, assim como desencadear efeito psicolítico, ou seja, liberar estes conteúdos na forma de revivências (geralmente da infância), estímulos da memória afetiva e eventos traumáticos.



No mesmo ano, o psiquiatra alemão F. Gnirss desenvolveu uma pesquisa intitulada Untersuchungen mit Psilocybin, einem Phantastikum aus dem Mexikanischen Rauschpilz Psilocybe mexicana (Estudos com psilocibina, um psicodélico do cogumelo Psilocybe mexicana), através da qual, ao administrar o alcalóide em um grupo de 18 pacientes saudáveis, conclui que o químico é um psicotrópico de teorética significativa e possibilidade de utilização psicoterapêutica.

Em 1960, outra pesquisa francesa, desenvolvida pelo psiquiatra A. M. Quétin, resultou em conclusões similares ao administrar o fármaco em um grupo de 32 pacientes saudáveis e 68 pacientes diagnosticados com quadros psicóticos. No mesmo ano, o psiquiatra R. Volmat, também francês e que já vinha desenvolvendo pesquisas sobre a estética produzida por pacientes portadores de distúrbios mentais, investigou a prática artística influenciada pela adição da psilocibina em 21 pintores amadores e profissionais. As conclusões mostraram que os artistas experienciaram “revelações” e novas propostas estéticas, através das quais a substância permitia ao pintor o “reconhecimento de um mundo visionário e colorido”.

Ainda em 1960, os psicólogos americanos Timothy Leary e Richard Alpert encabeçaram um projeto na Universidade de Harvard sob o nome de Harvard Psilocybin Research, do qual fizeram parte também o ensaísta filosófico e autor de Portas da Percepção – Aldous Huxley, o Presidente da Associação Psiquiátrica Americana – John Spiegel, o superior de Leary em Harvard – David McClelland, o psicólogo e professor da Universidade da Calofórnia – Frank Barron e dois estudantes graduados que já haviam trabalhado em um projeto à cerca da mescalina. Durante o programa, que durou de 60 a 62, uma série de experimentos foi desenvolvida para investigar as implicações da psilocibina sobre a natureza dos distúrbios psicóticos, tratamento de desordens de personalidade e psicoterapia auxiliada pelo uso do químico.

O desenvolvimento do programa, no entanto, foi significativamente prejudicado pela desenvoltura um tanto quanto anti-acadêmica de Timothy Leary. Desde o início do programa geral de pesquisa psicodélica em Harvard, o Harvard Psychedelic Drug Research Program, inaugurado em 1960 por 35 professores, instrutores e estudantes graduados, o psicólogo foi, aos poucos, se desfazendo da característica científica para tornar-se, anos mais tarde, uma espécie de guru da cultura psicodélica que vinha motorizando os fluxos intensos da Contracultura. Leary, extremamente fascinado pelas experiências de consciência desencadeadas por tais alcalóides, abandonou gradativamente a figura do pesquisador para investir-se da figura quase mística de um profeta do alucinógeno, que inclusive advogou o uso de drogas psicodélicas entre uma variedade de alunos sem monitoramento laboratorial ou intuito de pesquisa.

Até o momento drástico em que os psicodélicos escaparam dos laboratórios e tornaram-se os protagonistas de uma batalha política e, em função da política norte-americana da Guerra às Drogas, foram terminantemente proibidos, inclusive no universo científico, a psilocibina foi o centro de diversas investigações. Até o final dos anos 60 e início dos 70, quando os Estados Unidos responderam violentamente aos questionamentos da Contracultura, movimento do qual fazia parte expressiva a utilização destas drogas, os principais estudos concentravam-se em traçar paralelos entre as três principais substâncias do grupo – LSD, mescalina e psilocibina – e em examinar a potencialidade psicoterapêutica e possível relação entre os estados alterados de consciência provocados pela adição destes alcalóides e os distúrbios mentais. Com a medida que pôs fim às pesquisas, e através da qual o governo norte-americano arbitrariamente revogou toda e qualquer qualidade científica dos psicodélicos, a psilocibina foi, assim como os demais, silenciada, apenas voltando aos laboratórios após quase trinta anos de moratória.

Assim como a mescalina, apesar de uma recente e conturbada história ocidental e de representar uma novidade científica, a psilocibina nos remonta a eras antiqüíssimas e possui uma complexa carga histórica. Os primeiros registros datam de meados do séc. XVI, quando os historiadores da Nova Espanha fizeram os primeiros relatos da utilização sacramental dos cogumelos entre as populações nativas da atual região mexicana. Na famosa obra Historia General de las Cosas de Nueva España, onde o frade franciscano Bernardino Sahagún também reporta a utilização do cacto peiote pelas comunidades aborígenes, encontramos algumas das primeiras referências ao consumo ritual do cogumelo, identificado pela cultura local como teonanácatl, palavra de origem asteca-náhuatl cujo significado é “Carne de Deus”. A obra, fruto das observações de Sahagún desde a sua chegada na Nova Espanha em 1529 e finalizada no final do século, possui diversas passagens através das quais os cogumelos, assim como o peiote, ganham notoriedade enquanto elementos culturais nativos:

“Existem alguns cogumelos que dão nesta terra e se chamam teonanáctl, crescem debaixo do mato, nos campos e pântanos, são redondos e possuem a haste delgada. Quando comidos, possuem um sabor ruim, arranham a garganta e embreagam. São medicinais contra as queimaduras e gota. Deve-se comer dois ou três e não mais, e os que comem vêem visões e sentem palpitações no coração.”



A ingestão destes fungos representava um sistema complexo e legítimo de culturas e crenças, onde as alterações provocadas significavam o intermédio entre realidades distintas, relação através da qual se faziam previsões futuras, advinhações e curas, e através da qual se podia comunicar-se com os deuses. Os rituais expressavam-se não como elementos hedonistas, mas como fatores importantíssimos para a manutenção das comunidades, inclusive para a mobilidade dos seus membros dentro das hierarquias propostas, onde o curandeiro, figura que pode ser identificada como o xamã, possuía o conhecimento mágico que deveria comunicar e ensinar aos demais, e que lhe era passado pela própria substância, no caso, o cogumelo.

Além de Sahagún, três outros importantes personagens da conquista espanhola, o frade franciscano Toribio de Benavente (conhecido como frei Motolinia, nome dado pelos astecas), o frade dominicano Diego Durán e o pároco Jacinto de la Serna, também publicaram obras onde é possível encontrar relatos da utilização ritual dos cogumelos psicodélicos pelas comunidades locais. Motolinia, na obra Historia de los Indios de la Nueva España, escrita durante o séc. XVI e apenas publicada em 1858, talvez seja o primeiro a apropriar-se do termo asteca teotl (deus supremo) para referir-se aos cogumelos, que viria posteriormente a associar-se ao termo nanácatl (carne). Durán, em sua obra Historia de las Indias de Nueva España e Islas de la Tierra Firme, escrita no final do séc. XVI e publicada somente em 1867, e la Serna, em Manual de Ministros de Indios para el Conocimiento de sus Idolatrías y Extirpación de Ellas, obra de meados do séc. XVII, reportam o consumo do fungo como uma espécie de ritual de transubstanciação cristã, porém em moldes indígenas.

Todas as crônicas da Nova Espanha onde os cogumelos figuravam como parte da cultura aborígene, no entanto, bebiam, e imprescindivelmente, de fontes cristãs. A utilização ritual dos fungos foi rapidamente satanizada pelos relatos destes primeiros historiadores, onde o consumo de cogumelos era identificado como um culto demoníaco, em que o estado de “embriaguez” era provocado pelas forças do mal, e em que as previsões, visões coloridas, adivinhações e revelações eram concebidas pelo próprio Diabo. Tal costume, identificado como Idolatria (do fungo, da bebida, da planta etc.), uma prática que deveria ser “curada” pelos missionários, foi intensamente combatida pelos conquistadores, que contavam, inclusive, com uma gama de manuais que ensinavam-lhes como extirpar este tipo de comportamento e de como julgar as práticas indígenas segundo as diretrizes da Santa Inquisição.

A inabilidade da Igreja Católica Apostólica Romana em lidar com a riqueza intrínseca da vasta e múltipla natureza religiosa humana não só aniquilou todas as formas de expressão cultural e ritualística envolvendo o consumo dos cogumelos portadores de psilocibina, assim como destruiu definitivamente as manifestações nativa da Nova Espanha. Civilizações foram dizimadas e hoje, restam apenas raras e mal conservadas amostras remanescentes, entre elas algumas ligadas ao consumo ritual do cacto peiote (Igreja Nativa Americana).

Mas apesar das investidas da Conquista Espanhola nas terras da América Central e México, algumas expressões artísticas permaneceram enquanto elementos históricos e nos fornecem dados importantes à cerca da história do consumo da psilocibina. Os primeiros registros arqueológicos que envolvem a utilização ritual dos cogumelos psicodélicos nos remetem há aproximadamente mil anos a.C. e encontram-se na região da América Central. Em 1898, o geógrafo alemão Carl Sapper descreveu pela primeira vez um grupo de esculturas em forma de cogumelo, que se julgou em princípio serem representações fálicas, encontradas em El Salvador, Guatemala. Estas estátuas, a maioria de aproximadamente 30cm de altura, possuíam um chapéu grosso e abaloado e ainda faces humanas e outras representações esculpidas nos talos e foram identificadas como manifestações remanescentes da cultura Maia.



Tal descoberta chamou a atenção do autor e pesquisador russo Gordon Wasson e de sua esposa Valentina Pavlovna Wasson, que já vinham pesquisando as implicações culturais relativas aos cogumelos na Rússia. Os Wasson percorreram alguns territórios do México e América Central em 1953 e sugeriram – de maneira bastante convincente – que tais estátuas eram registros arqueológicos de antigas práticas ligadas ao consumo e à adoração dos cogumelos da psilocibina. Tais monumentos foram também estudados pelo arqueólogo Stephan F. Borhegyi, que acompanhou o casal Wasson durante sua viagem e atribuiu os cogumelos de pedra ao séc. X a.C, mais precisamente entre o séc. XIII a.C. e o séc. VIII d.C.

Além das esculturas, outro fato importante ligado á cultura ritual dos cogumelos havia ocorrido na mesma região pela qual os Wasson iniciaram o seu curso de investigação na América Central, aproximadamente 15 anos antes. Em 1938, o antropólogo mexicano Robert J. Weitlaner e o botânico estadunidense Richard Evans Schultes, da Universidade de Harvard, encontraram práticas religiosas remanescentes que utilizavam cogumelos psicodélicos na cidade de Huautla de Jimenez, capital do território Mazatec, no Estado de Oaxaca. Neste mesmo ano, um grupo de antropólogos americanos pôde assistir, pela primeira vez, um ritual secreto do cogumelo, sob a liderança de Jean Bassett Johnson, que havia seguido as orientações e Witlaner. A experiência foi publicada no ano seguinte.

Quinze anos depois, os Wasson, talvez as mais importantes personalidades no que diz respeito ao conhecimento moderno sobre estes cogumelos, percorrerem diversas cidades e locais onde haviam indícios e registros da cultura ligada ao fungo e depararam-se com manifestações atuais provenientes da cultura asteca, entretanto já carregada pelo sincretismo religioso que substituía as figuras nativas por figuras cristãs. O casal, além das já citadas esculturas, ainda deparou-se com uma série de referências sagrados aos cogumelos nos afrescos de Teotihuacan, sítio arqueológico localizado a 40 km da Cidade do México, onde as figurações murais denotavam divindades portando cogumelos nas mãos, o ato do consumo e uma série de figuras que podem ser interpretadas como alusões ao fungo. Gordon e Valentina puderam reunir uma vasta documentação dedicada ao tema, além de recolher espécies, através das quais descobriram, enfim, a existência de uma substância ativa que provocava os estados alterados de consciência: a partir daí a psilocibina foi trazida aos laboratórios científicos, onde foi isolada, nomeada e sintetizada pela primeira vez.

De 1953 ao final dos anos 60 a substância foi o centro de diversas pesquisas, já citadas anteriormente, até cair no silêncio sufocante imposto pela política norte-americana da Guerra às Drogas. Aproximadamente após três décadas de um período marcado pela moratória científica arbitrariamente fixada, os psicodélicos iniciaram um expressivo movimento de retorno aos domínios científicos (ver matéria: O Renascimento da Pesquisa Psicodélica).

A partir deste momento e até os dias de hoje, a psilocibina tornou-se novamente o centro de diversos estudos. Em 2004, o psiquiatra norte-americano Charles Grob, da Universidade da Califórnia, desenvolveu uma pesquisa que investigou o químico enquanto fator terapêutico em pacientes com câncer em estado terminal em 12 pacientes. O estudo, que procurava a redução do estresse e dor, obteve resultados animadores no aumento da qualidade de vida dos pacientes e os dados revelaram um aspecto promissor na utilização clínica da substância.

Em 2006, o psiquiatra Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, iniciou uma pesquisa sobre o uso terapêutico da substância em pacientes diagnosticados com distúrbio obsessivo-compulsivo que resistiram a outros tipos de tratamento, assim como para fins de teste de segurança do alcalóide no organismo. As conclusões reportaram que todos os pacientes, da amostra de 9, experienciaram melhorias nos quadros obsessivos compulsivos durante o período da experiência. Apesar uma pequena pesquisa, com uma amostra e um alcance não tão significativos, Moreno reportou seu ânimo diante da potencialidade da substância: “O que vimos foi uma drástica diminuição dos sintomas durante um período de tempo. As pessoas diziam que não se sentiam tão bem há anos”.



Em outro estudo, do mesmo ano, liderado pelo neurocientista americano Roland Griffiths, da Faculdade de Medicina da Faculdade Johns Hopkins, foram administradas doses de mescalina a 36 pacientes saudáveis a fim de se investigar os mecanismos da experiência psicodélica que afetam a percepção e cognição. Cerca de dois terços dos voluntários relatou haver vivenciado uma completa experiência mística, caracterizada por uma sensação de unidade com todo o universo. Quatorze meses após a administração das doses, Griffiths os entrevistou novamente: os pacientes ainda atribuíam à experiência altos níveis de satisfação transcendental e a associaram ao crescente bem-estar que sentiam desde então, inclusive relatado pelos familiares e pessoas próximas. “A maioria dos voluntários conseguia se lembrar de suas experiências 14 meses depois e as classificavam como uma das cinco experiências espirituais mais significativas já vividas, comparando-as com o nascimento de um filho ou a morte do pai ou da mãe. É fantástico passar por uma experiência assim tão marcante. Mais fantástico ainda é ela ainda ser significativa 14 meses depois. Experiências como essas são inesquecíveis”, afirma Griffiths.

Ainda em 2006, temos a pesquisa do psiquiatra norte-americano John Halpern, da Universidade de Harvard, que investigou os efeitos terapêuticos da psilocibina e do LSD em pacientes diagnosticados com uma enxaqueca intensa conhecida como enxaqueca em salvas. 22 dos 26 pacientes em que foi administrada psilocibina e 25 dos 48 em que foi administrado LSD reportaram diminuição dos ataques e alguns até mesmo a remissão por períodos extensos.

Em 2008, os médicos e pesquisadores Juan Sanchez-Ramos e Briony Catlow, da Universidade da Flórida do Sul, iniciaram uma pesquisa afim de investigar a possibilidade de a psilocibina auxiliar o processo de nascimento e desenvolvimento de novas células cerebrais (neurogênese) na área conhecida como hipocampo, responsável pela cognição e memória. O estudo, corrente, ainda não possui publicação.

As modernas frentes de pesquisa nos têm mostrado, com dados promissores, que os psicodélicos possuem uma potencialidade ainda pouco conhecida pelos cientistas e que jamais deveriam ter sido condenados a uma moratória durante longas décadas. Os novos estudos têm inspirado um honesto retorno de alcalóides como a psilocibina aos domínios da ciência e desmentindo a demoníaca imagem pintada pelas jogatinas políticas norte-americanas nos anos 60.


// EFEITOS E RISCOS:

De um modo geral, os efeitos decorrentes do consumo da psilocibina iniciam-se aproximadamente entre 30 a 60 minutos após a ingestão (cogumelos frescos, desidratados ou infusão), e de aproximadamente 15 minutos quando administrada por via intra-venal.

A dose ativa da substância é de aproximadamente 15mg e dura, geralmente, de 4 a 8 horas, tendo o seu pico aproximado cerca de 1 ou 2 horas após o consumo.

Os efeitos psíquicos, assim como para os demais psicodélicos, variam de acordo com o ambiente (condição externa) e o estado de espírito e personalidade (condição interna) do usuário e as experiências ruins e potencialmente danosas são mais freqüentemente observadas entre os usuários recreacionais (ilícitos). Os efeitos, apesar de menos intensos que os provocados pelos outros dois alcalóides expoentes do grupo – LSD e mescalina – são similares aos dos pertencentes à família dos psicodélicos: alterações na percepção visual que podem incluir visões caleidoscópicas e hiper-coloridas; sensibilização sensorial; experiências de despersonalização onde o indivíduo perde a identidade com seu próprio corpo e com os limites do próprio corpo; alteração da noção temporal e espacial; sensação de plenitude consciencial, de unicidade com o universo (cosmovisão); sensações tanto de paz suprema quanto de intenso terror que pode levar a quadros de pânico (má viagem, bad trip); taquipsiquismo (pensamento rápido); pensamento confuso e desordenado; perda do controle emocional etc.



Apesar de podermos delinear um certo universo de efeitos, a definição dos mesmos torna-se essencialmente dificultada devido a natureza subjetiva e idiossincrásica da experiência psicodélica.

Já os efeitos fisiológicos incluem alterações variáveis como o aumento da pressão sanguínea, taquicardia, midríase (dilatação da pupila) e atividades eméticas (vômito).

A psilocibina não é capaz de desenvolver relação de vício com o usuário e não possui toxicidade cerebral suficiente para acarretar problemas, distúrbios ou danos neurológicos. O grande problema encontrado no uso das substâncias psicodélicas não recai em seus mecanismos fisiológicos, mas sim nos efeitos imprevisíveis que esta adição pode causar no indivíduo psiquicamente (principalmente quando utilizada com fins recreativos).

Os cogumelos são conhecidos pelas famosas “viagens sem volta”, mas não há nada nestes fungos que os coloque em maior posição de risco frente a outros psicodélicos, como o LSD. As tais “viagens sem volta”, em fato, são baseadas em desencadeamentos de crises psicóticas severas e prolongadas em pessoas que já possuem histórico ou propensão genética a este tipo de comportamento, e sob a utilização de qualquer psicodélico.


// MECANISMO DE AÇÃO:

Os mecanismo de ação de substâncias como a psilocibina, assim com os de outros químicos deste grupo, apresentam, ainda hoje, uma série de lacunas preenchidas apenas por teorias. Os últimos estudos têm encontrado diversos indícios da natureza química interativa no cérebro humano.

Sabe-se que a psilocibina possui estrutura semelhante aos neurotransmissores cerebrais dopamina, noradrenalina e especialmente a serotonina. Em função de tal afinidade, a molécula liga-se aos mesmo locais (receptores) em que estas substâncias se conectam, onde passam a desenvolver a função de neurotransmissores, neste caso, de origem externa. Os neurocientistas acreditam que a ativação de determinados grupos destes receptores é o mecanismo responsável pelas alterações perceptivas e cognitivas produzidas pela adição destes químicos.


// STATUS POLÍTICO ATUAL:

A psilocibina e psilocina são consideradas drogas ilícitas pelas Nações Unidades, através da Convenção de Substâncias Psicotrópicas, de 1971. Incoerentemente elas pertencem às drogas da escala 1, a mais perigosa e escala da qual fazem parte substâncias cujo uso terapêutico ou medicinal é nulo. Esta convenção foi adotada pela maioria esmagadora dos países no globo, e não há qualquer federação onde a substância não seja ilegal.

A produção e cultivo dos cogumelos produtores de psilocibina, assim como a sintetização, produção, comercialização e consumo da psilocibina ou psilocina são proibidos sob pena de se fazer valer as medidas constitucionais cabíveis em cada federação.

Assim como para outros psicodélicos ilícitos, existe uma população que faz uso recreativo da psilocibina. A dificuldade de encontrar os cogumelos e da até então inexistência de laboratórios clandestinos capazes de sintetizar o alcalóide, tornam o uso recreativo desta substância dificultado.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Personalidades // Stanislav Grof: Da Psicoterapia com LSD à Psicologia Transpessoal



"Nosso universo, que parece englobar um número incontável de entidades e elementos diferentes, apresenta-se, então, como um único ser, de imensas proporções e complexidade inimaginável."

Stanislav Grof é um psiquiatra tcheco (Praga, 1931), radicado nos Estados Unidos desde 1967, que desenvolve uma vasta e rica pesquisa de mais de 5 décadas sobre as implicações dos estados alterados de consciência (provocados ou não pela ingestão de substâncias psicodélicas) nos processos de análise, cura e comportamento humanos (terapia). Grof já publicou 16 livros através dos quais tem divulgado os resultados das incontáveis observações clínicas de sua moderna pesquisa da consciência, e estas publicações trouxeram uma série de profundas implicações para as áreas da Psiquiatria e Psicologia.

Grof iniciou sua investigação da consciência em 1956, no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Praga. Ele, um residente recém-formado em medicina, e sua equipe receberam, do Laboratório Sandoz, baseado na Suiça, uma caixa cheia de frascos contendo uma novíssima substância recém sintetizada pela primeira vez na história: o composto Dietilamida do Ácido Lisérgico, LSD. Grof era um voluntário na pesquisa da nova substância, e à Sandoz interessavam múltiplos estudos e investigações sobre uma droga que já causava um grande rebuliço e forte interesse pela comunidade científica. A sua notável potência enquanto alterador psíquico era algo novo e desafiador.

Grof, como voluntário, submeteu-se ao LSD em uma experiência que modificou radicalmente suas dimensões e interesses profissionais. Ele a cita como uma experiência indescritível e esmagadora de consciência cósmica, através da qual pôde vivenciar a sensação de desligar-se do ego, do estado ordinário das coisas em que o fim material de um elemento termina onde começa a matéria do outro, e experienciar a unicidade de todas as coisas. Este experimento bastou para que Grof se interessasse com afinco pelas questões dos estados alterados de consciência e iniciasse uma intensa e honesta busca por respostas que cruzassem tais estados com as potencialidades terapêuticas e os frios e cartesianos domínios da ciência.

Grof iniciou um programa de estudos sobre o potencial terapêutico e implicações do LSD na consciência e comportamento humanos no departamento em que trabalhava, até mudar-se, em 1967, para Baltimore, nos Estados Unidos, onde participou do último programa de pesquisa psicodélica sobrevivente, no Centro de Pesquisa Psiquiátrica Maryland. Nesta época o LSD foi terminantemente proibido em território americano e banido, arbitrariamente, dos laboratórios da ciência. Este momento marcava o início de uma violenta política pública, conhecida como "Guerra às Drogas", que veio a enclausurar toda a promissória pesquisa e investigação das substâncias psicodélicas em uma penosa moratória científica que perdurou por mais de 30 anos.

Nos anos seguintes Grof desenvolveu, então, uma novo processo através do qual seus pacientes poderiam se submeter a estados alterados de consciência sem a utilização de agentes exógenos (substâncias não produzidas pelo próprio corpo). Este novo processo veio a ser conhecido como Respiração Holotrópica: uma técnica respiratória capaz de produzir efeitos semelhantes às experiências e transes desencadeados pela ingestão de drogas como o LSD. O momento da interrupção das pesquisas com psicodélicos, apesar de condenar uma série de promissores estudos científicos, foi, no entanto, propício para que outros tipos de informação e cruzamentos de dados ocorressem. Verificou-se uma similaridade espantosa entre a experiência produzida por psicodélicos e os milhares de relatos, históricos ou atuais, sobre vivências místicas e transes religiosos experimentados pelos mais distintos universos ligados ao conhecimento transcendental.



Os estados alterados de consciência, através da utilização de drogas, meditação, respiração holotrópica, música tribal ou qualquer outro processo, representavam um aspecto muito mais profundo e complexo do que se imaginava. As experiências vividas pelo ser humano, nas mais diversas épocas e nos mais diversos lugares, escondiam por trás de seu aparente misticismo e sobrenaturalidade, algo que a ciência, até o momento, havia deliberadamente confinado no duvidoso mundo das fantasias, lendas, do pensamento mágico primitivo, e pior, das patologias. Diante dos olhos científicos, até então, xamãs e santos poderiam facilmente se encaixar em quadros clínicos psicóticos - de esquizofrênicos a neuróticos, e a ciência jamais atentou sua visão investigativa com honestidade e sofisticação para o que sempre representou um processo natural e legítimo do ser humano: sua busca e sua vivência rica e idiossincrásica por aquilo que parece existir para além da consciência ordinária e do ego material definido pelos nossos corpos, processos orgânicos e biológicos.

Nascia, a partir de todos estes questionamentos e da pioneira investigação destes estados através da utilização de drogas psicodélicas, um novo braço da Psicologia. Conhecida como a "quarta força", posterior ao Comportamentalismo (Behaviorismo), à Psicanálise Freudiana e à Psicologia Humanista, a Psicologia Transpessoal emergiu com uma intensidade capaz de expandir os horizontes sobre a investigação do ser e da consciência humana. Apesar de a ciência clássica - cartesiana-newtoniana mecanicista, não receber novos e ousados paradigmas com calorosas boas-vindas, a Psicologia Transpessoal passou a se comunicar amigavelmente com diversos outros tipos de ciência, como a Física Quântica, apesar de leitura quântica clássica permanecer materialista e reducionista. A Psicologia Transpessoal emplacou como ciência reconhecida e sua constante investigação continua avançando sobre as obscuridades da consciência e psique humanas.

O próprio Albert Hoffman - sintetizador do LSD, foi um grande entusiasta de Grof, revelando que o psiquiatra talvez tenha sido quem melhor soube conduzir as investigações sobre as implicações do uso dos Psicodélicos na busca por respostas sobre a misteriosa mente humana e a psique. Hoffman chegou a declarar que, se ele é o pai do LSD, Grof certamente é o padrinho.

Grof aborda uma variedade de temas cruzados através dos estudos da Psicologia Transpessoal, além de inúmeros relatos sobre suas pesquisas na área da psicoterapia com LSD e da respiração holotrópica, em suas diversas publicações (inclusve em co-autoria com sua esposa, Christina Grof), no entanto apenas algumas destas obras foram traduzidas para a língua portuguesa: Além do Cérebro, Emergência Espiritual, A Tempestuosa Busca do Ser, A Mente Holotrópica, Além da Morte, A Aventura da Autodescoberta, Jogo Cósmico e Psicologia do Futuro.

Links:
Site Oficial de Stanislav Grof
Psicologia Transpessoal no Wikipedia