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quarta-feira, 17 de junho de 2009

As Drogas // Psilocibina: o Sangue Azul dos Cogumelos


Por trás dos famosos cogumelos mágicos, tema recorrente sobre as tais viagens sem volta, existe uma intensa substância impregnada por uma rica história ancestral. Muito antes das psicodélicas histórias de Alice, onde uma simples mordida em um cogumelo era capaz de expandi-la a tamanhos imensuráveis, a psilocibina representava a divindade capaz de expandir não as medidas, mas a consciência através de realidades sagradas.

A psilocibina (O-fosforil-4-hidróxi-N,N-dimetiltriptamina) – alcalóide pertencente à família das triptaminas – é um poderoso composto psicodélico encontrado naturalmente em uma diversidade de espécies de cogumelo dos gêneros Psilocybe (ao qual pertence o antigo gênero Stropharia), Conocybe e Panaeolus (Copelandia), das quais o Psilocybe cubensis e o Psilocybe mexicana são as mais conhecidas. Estas espécies, muito distintos da imagem clichê do cogumelo vermelho com manchas brancas (Amanita muscaria, que será abordado no tema das drogas muscarina e escopolamina) são geralmente encontradas na América Central e México, mas podem também ser verificados em outras regiões do globo, principalmente nas localizações equatoriais e tropicais, visto que algumas espécies possuem comportamento cosmopolita.


O químico foi descoberto em 1953 por Gordon Wasson, um autor e pesquisador russo que desenvolveu uma série de contribuições para os campos da botânica e antropologia. A psilocibina é um psicodélico relativamente novo, em termos científicos, visto que a sua entrada nos laboratórios foi posterior à descoberta de outras substâncias como a mescalina, 60 anos antes, e do LSD, anterior em uma década. Cinco anos após a identificação por Wasson, Albert Hoffman, o famoso químico descobridor do LSD, foi o primeiro cientista a isolar o princípio ativo e a descrever sua estrutura molecular: o alcalóide de coloração azulada, na verdade eram dois deles e extremamente similares, foram batizados de Psilocibina e Psilocina, em alusão ao gênero Psilocybe: palavra de origem grega que significa cabeça (cybe) pelada (psilos). Os resultados, obtidos por Hoffman em colaboração com dois colegas (A. Brack e Dr. H. Kobel) e um professor (Roger Heim), foram publicados, em março de 1958, em nota no jornal científico Experientia. Os mecanismos de ação, em fato, devem-se a um princípio único, visto que a psilocibina converte-se em psilocina dentro do próprio corpo através de um processo chamado desfoforilação, mas os dois compostos são naturalmente encontrados nos cogumelos, sendo o primeiro deles verificado em maior porcentagem.

Posteriormente, em parceria com outros quatro colegas (A. J. Frey, H. Ott, T. Petrzilka e F. Troxler), Hoffman descobriu a síntese da psilocibina, cuja fórmula foi patenteada em 1963. Os resultados da pesquisa foram publicados em dezembro de 1958, também no jornal Experientia. A substância foi identificada como similar a outros químicos com o LSD, cujos intensos efeitos psíquicos denunciavam a urgência de novas frentes de pesquisa. A psilocibina entrou, decisivamente, para a família daqueles estranhos e misteriosos alcalóides que vinham desafiando a percepção sobre a natureza da mente humana. A partir da descoberta da sintetização, os laboratórios Sandoz, para o qual Hoffman trabalhava, passaram a disponibilizar a substância, assim como o LSD e outros psicodélicos, para as novas frentes de pesquisa que se disseminavam no início dos anos 60, principalmente norteados pelas vanguardas investigativas da Psiquiatria e Neurologia.

Em 1959, a psilocibina já se tornava a protagonista de uma série de estudos científicos, principalmente relativos à prática psicoterápica auxiliada por psicodélicos. Uma pesquisa francesa, liderada pelo médico Jean Delay, intitulada Les Effets Psychiques de la Psilocybine et les Perspectives Thérapeutiques (Os Efeitos Psíquicos da Psilocibina e as Perspectivas Terapêuticas), administrou a psilocibina em 13 pacientes saudáveis e em 30 pacientes diagnosticados com desordens mentais e concluiu que a substância, menos alucinógena que a mescalina e menos intensa que o LSD, possuía um significativo potencial enquanto ferramenta terapêutica. No mesmo ano, Delay, pioneiro na pesquisa sistemática da psilocibina nos domínios psiquiátricos, deu continuidade à investigação, publicando o artigo Premiers Essais de la Psilocybine en Psychiatrie (Primeiros Ensaios da Psilocibina na Psiquiatria), onde conclui que a substância, enquanto auxiliar psiquiátrico, é capaz de provocar melhor acessibilidade aos conteúdos do paciente, assim como desencadear efeito psicolítico, ou seja, liberar estes conteúdos na forma de revivências (geralmente da infância), estímulos da memória afetiva e eventos traumáticos.



No mesmo ano, o psiquiatra alemão F. Gnirss desenvolveu uma pesquisa intitulada Untersuchungen mit Psilocybin, einem Phantastikum aus dem Mexikanischen Rauschpilz Psilocybe mexicana (Estudos com psilocibina, um psicodélico do cogumelo Psilocybe mexicana), através da qual, ao administrar o alcalóide em um grupo de 18 pacientes saudáveis, conclui que o químico é um psicotrópico de teorética significativa e possibilidade de utilização psicoterapêutica.

Em 1960, outra pesquisa francesa, desenvolvida pelo psiquiatra A. M. Quétin, resultou em conclusões similares ao administrar o fármaco em um grupo de 32 pacientes saudáveis e 68 pacientes diagnosticados com quadros psicóticos. No mesmo ano, o psiquiatra R. Volmat, também francês e que já vinha desenvolvendo pesquisas sobre a estética produzida por pacientes portadores de distúrbios mentais, investigou a prática artística influenciada pela adição da psilocibina em 21 pintores amadores e profissionais. As conclusões mostraram que os artistas experienciaram “revelações” e novas propostas estéticas, através das quais a substância permitia ao pintor o “reconhecimento de um mundo visionário e colorido”.

Ainda em 1960, os psicólogos americanos Timothy Leary e Richard Alpert encabeçaram um projeto na Universidade de Harvard sob o nome de Harvard Psilocybin Research, do qual fizeram parte também o ensaísta filosófico e autor de Portas da Percepção – Aldous Huxley, o Presidente da Associação Psiquiátrica Americana – John Spiegel, o superior de Leary em Harvard – David McClelland, o psicólogo e professor da Universidade da Calofórnia – Frank Barron e dois estudantes graduados que já haviam trabalhado em um projeto à cerca da mescalina. Durante o programa, que durou de 60 a 62, uma série de experimentos foi desenvolvida para investigar as implicações da psilocibina sobre a natureza dos distúrbios psicóticos, tratamento de desordens de personalidade e psicoterapia auxiliada pelo uso do químico.

O desenvolvimento do programa, no entanto, foi significativamente prejudicado pela desenvoltura um tanto quanto anti-acadêmica de Timothy Leary. Desde o início do programa geral de pesquisa psicodélica em Harvard, o Harvard Psychedelic Drug Research Program, inaugurado em 1960 por 35 professores, instrutores e estudantes graduados, o psicólogo foi, aos poucos, se desfazendo da característica científica para tornar-se, anos mais tarde, uma espécie de guru da cultura psicodélica que vinha motorizando os fluxos intensos da Contracultura. Leary, extremamente fascinado pelas experiências de consciência desencadeadas por tais alcalóides, abandonou gradativamente a figura do pesquisador para investir-se da figura quase mística de um profeta do alucinógeno, que inclusive advogou o uso de drogas psicodélicas entre uma variedade de alunos sem monitoramento laboratorial ou intuito de pesquisa.

Até o momento drástico em que os psicodélicos escaparam dos laboratórios e tornaram-se os protagonistas de uma batalha política e, em função da política norte-americana da Guerra às Drogas, foram terminantemente proibidos, inclusive no universo científico, a psilocibina foi o centro de diversas investigações. Até o final dos anos 60 e início dos 70, quando os Estados Unidos responderam violentamente aos questionamentos da Contracultura, movimento do qual fazia parte expressiva a utilização destas drogas, os principais estudos concentravam-se em traçar paralelos entre as três principais substâncias do grupo – LSD, mescalina e psilocibina – e em examinar a potencialidade psicoterapêutica e possível relação entre os estados alterados de consciência provocados pela adição destes alcalóides e os distúrbios mentais. Com a medida que pôs fim às pesquisas, e através da qual o governo norte-americano arbitrariamente revogou toda e qualquer qualidade científica dos psicodélicos, a psilocibina foi, assim como os demais, silenciada, apenas voltando aos laboratórios após quase trinta anos de moratória.

Assim como a mescalina, apesar de uma recente e conturbada história ocidental e de representar uma novidade científica, a psilocibina nos remonta a eras antiqüíssimas e possui uma complexa carga histórica. Os primeiros registros datam de meados do séc. XVI, quando os historiadores da Nova Espanha fizeram os primeiros relatos da utilização sacramental dos cogumelos entre as populações nativas da atual região mexicana. Na famosa obra Historia General de las Cosas de Nueva España, onde o frade franciscano Bernardino Sahagún também reporta a utilização do cacto peiote pelas comunidades aborígenes, encontramos algumas das primeiras referências ao consumo ritual do cogumelo, identificado pela cultura local como teonanácatl, palavra de origem asteca-náhuatl cujo significado é “Carne de Deus”. A obra, fruto das observações de Sahagún desde a sua chegada na Nova Espanha em 1529 e finalizada no final do século, possui diversas passagens através das quais os cogumelos, assim como o peiote, ganham notoriedade enquanto elementos culturais nativos:

“Existem alguns cogumelos que dão nesta terra e se chamam teonanáctl, crescem debaixo do mato, nos campos e pântanos, são redondos e possuem a haste delgada. Quando comidos, possuem um sabor ruim, arranham a garganta e embreagam. São medicinais contra as queimaduras e gota. Deve-se comer dois ou três e não mais, e os que comem vêem visões e sentem palpitações no coração.”



A ingestão destes fungos representava um sistema complexo e legítimo de culturas e crenças, onde as alterações provocadas significavam o intermédio entre realidades distintas, relação através da qual se faziam previsões futuras, advinhações e curas, e através da qual se podia comunicar-se com os deuses. Os rituais expressavam-se não como elementos hedonistas, mas como fatores importantíssimos para a manutenção das comunidades, inclusive para a mobilidade dos seus membros dentro das hierarquias propostas, onde o curandeiro, figura que pode ser identificada como o xamã, possuía o conhecimento mágico que deveria comunicar e ensinar aos demais, e que lhe era passado pela própria substância, no caso, o cogumelo.

Além de Sahagún, três outros importantes personagens da conquista espanhola, o frade franciscano Toribio de Benavente (conhecido como frei Motolinia, nome dado pelos astecas), o frade dominicano Diego Durán e o pároco Jacinto de la Serna, também publicaram obras onde é possível encontrar relatos da utilização ritual dos cogumelos psicodélicos pelas comunidades locais. Motolinia, na obra Historia de los Indios de la Nueva España, escrita durante o séc. XVI e apenas publicada em 1858, talvez seja o primeiro a apropriar-se do termo asteca teotl (deus supremo) para referir-se aos cogumelos, que viria posteriormente a associar-se ao termo nanácatl (carne). Durán, em sua obra Historia de las Indias de Nueva España e Islas de la Tierra Firme, escrita no final do séc. XVI e publicada somente em 1867, e la Serna, em Manual de Ministros de Indios para el Conocimiento de sus Idolatrías y Extirpación de Ellas, obra de meados do séc. XVII, reportam o consumo do fungo como uma espécie de ritual de transubstanciação cristã, porém em moldes indígenas.

Todas as crônicas da Nova Espanha onde os cogumelos figuravam como parte da cultura aborígene, no entanto, bebiam, e imprescindivelmente, de fontes cristãs. A utilização ritual dos fungos foi rapidamente satanizada pelos relatos destes primeiros historiadores, onde o consumo de cogumelos era identificado como um culto demoníaco, em que o estado de “embriaguez” era provocado pelas forças do mal, e em que as previsões, visões coloridas, adivinhações e revelações eram concebidas pelo próprio Diabo. Tal costume, identificado como Idolatria (do fungo, da bebida, da planta etc.), uma prática que deveria ser “curada” pelos missionários, foi intensamente combatida pelos conquistadores, que contavam, inclusive, com uma gama de manuais que ensinavam-lhes como extirpar este tipo de comportamento e de como julgar as práticas indígenas segundo as diretrizes da Santa Inquisição.

A inabilidade da Igreja Católica Apostólica Romana em lidar com a riqueza intrínseca da vasta e múltipla natureza religiosa humana não só aniquilou todas as formas de expressão cultural e ritualística envolvendo o consumo dos cogumelos portadores de psilocibina, assim como destruiu definitivamente as manifestações nativa da Nova Espanha. Civilizações foram dizimadas e hoje, restam apenas raras e mal conservadas amostras remanescentes, entre elas algumas ligadas ao consumo ritual do cacto peiote (Igreja Nativa Americana).

Mas apesar das investidas da Conquista Espanhola nas terras da América Central e México, algumas expressões artísticas permaneceram enquanto elementos históricos e nos fornecem dados importantes à cerca da história do consumo da psilocibina. Os primeiros registros arqueológicos que envolvem a utilização ritual dos cogumelos psicodélicos nos remetem há aproximadamente mil anos a.C. e encontram-se na região da América Central. Em 1898, o geógrafo alemão Carl Sapper descreveu pela primeira vez um grupo de esculturas em forma de cogumelo, que se julgou em princípio serem representações fálicas, encontradas em El Salvador, Guatemala. Estas estátuas, a maioria de aproximadamente 30cm de altura, possuíam um chapéu grosso e abaloado e ainda faces humanas e outras representações esculpidas nos talos e foram identificadas como manifestações remanescentes da cultura Maia.



Tal descoberta chamou a atenção do autor e pesquisador russo Gordon Wasson e de sua esposa Valentina Pavlovna Wasson, que já vinham pesquisando as implicações culturais relativas aos cogumelos na Rússia. Os Wasson percorreram alguns territórios do México e América Central em 1953 e sugeriram – de maneira bastante convincente – que tais estátuas eram registros arqueológicos de antigas práticas ligadas ao consumo e à adoração dos cogumelos da psilocibina. Tais monumentos foram também estudados pelo arqueólogo Stephan F. Borhegyi, que acompanhou o casal Wasson durante sua viagem e atribuiu os cogumelos de pedra ao séc. X a.C, mais precisamente entre o séc. XIII a.C. e o séc. VIII d.C.

Além das esculturas, outro fato importante ligado á cultura ritual dos cogumelos havia ocorrido na mesma região pela qual os Wasson iniciaram o seu curso de investigação na América Central, aproximadamente 15 anos antes. Em 1938, o antropólogo mexicano Robert J. Weitlaner e o botânico estadunidense Richard Evans Schultes, da Universidade de Harvard, encontraram práticas religiosas remanescentes que utilizavam cogumelos psicodélicos na cidade de Huautla de Jimenez, capital do território Mazatec, no Estado de Oaxaca. Neste mesmo ano, um grupo de antropólogos americanos pôde assistir, pela primeira vez, um ritual secreto do cogumelo, sob a liderança de Jean Bassett Johnson, que havia seguido as orientações e Witlaner. A experiência foi publicada no ano seguinte.

Quinze anos depois, os Wasson, talvez as mais importantes personalidades no que diz respeito ao conhecimento moderno sobre estes cogumelos, percorrerem diversas cidades e locais onde haviam indícios e registros da cultura ligada ao fungo e depararam-se com manifestações atuais provenientes da cultura asteca, entretanto já carregada pelo sincretismo religioso que substituía as figuras nativas por figuras cristãs. O casal, além das já citadas esculturas, ainda deparou-se com uma série de referências sagrados aos cogumelos nos afrescos de Teotihuacan, sítio arqueológico localizado a 40 km da Cidade do México, onde as figurações murais denotavam divindades portando cogumelos nas mãos, o ato do consumo e uma série de figuras que podem ser interpretadas como alusões ao fungo. Gordon e Valentina puderam reunir uma vasta documentação dedicada ao tema, além de recolher espécies, através das quais descobriram, enfim, a existência de uma substância ativa que provocava os estados alterados de consciência: a partir daí a psilocibina foi trazida aos laboratórios científicos, onde foi isolada, nomeada e sintetizada pela primeira vez.

De 1953 ao final dos anos 60 a substância foi o centro de diversas pesquisas, já citadas anteriormente, até cair no silêncio sufocante imposto pela política norte-americana da Guerra às Drogas. Aproximadamente após três décadas de um período marcado pela moratória científica arbitrariamente fixada, os psicodélicos iniciaram um expressivo movimento de retorno aos domínios científicos (ver matéria: O Renascimento da Pesquisa Psicodélica).

A partir deste momento e até os dias de hoje, a psilocibina tornou-se novamente o centro de diversos estudos. Em 2004, o psiquiatra norte-americano Charles Grob, da Universidade da Califórnia, desenvolveu uma pesquisa que investigou o químico enquanto fator terapêutico em pacientes com câncer em estado terminal em 12 pacientes. O estudo, que procurava a redução do estresse e dor, obteve resultados animadores no aumento da qualidade de vida dos pacientes e os dados revelaram um aspecto promissor na utilização clínica da substância.

Em 2006, o psiquiatra Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, iniciou uma pesquisa sobre o uso terapêutico da substância em pacientes diagnosticados com distúrbio obsessivo-compulsivo que resistiram a outros tipos de tratamento, assim como para fins de teste de segurança do alcalóide no organismo. As conclusões reportaram que todos os pacientes, da amostra de 9, experienciaram melhorias nos quadros obsessivos compulsivos durante o período da experiência. Apesar uma pequena pesquisa, com uma amostra e um alcance não tão significativos, Moreno reportou seu ânimo diante da potencialidade da substância: “O que vimos foi uma drástica diminuição dos sintomas durante um período de tempo. As pessoas diziam que não se sentiam tão bem há anos”.



Em outro estudo, do mesmo ano, liderado pelo neurocientista americano Roland Griffiths, da Faculdade de Medicina da Faculdade Johns Hopkins, foram administradas doses de mescalina a 36 pacientes saudáveis a fim de se investigar os mecanismos da experiência psicodélica que afetam a percepção e cognição. Cerca de dois terços dos voluntários relatou haver vivenciado uma completa experiência mística, caracterizada por uma sensação de unidade com todo o universo. Quatorze meses após a administração das doses, Griffiths os entrevistou novamente: os pacientes ainda atribuíam à experiência altos níveis de satisfação transcendental e a associaram ao crescente bem-estar que sentiam desde então, inclusive relatado pelos familiares e pessoas próximas. “A maioria dos voluntários conseguia se lembrar de suas experiências 14 meses depois e as classificavam como uma das cinco experiências espirituais mais significativas já vividas, comparando-as com o nascimento de um filho ou a morte do pai ou da mãe. É fantástico passar por uma experiência assim tão marcante. Mais fantástico ainda é ela ainda ser significativa 14 meses depois. Experiências como essas são inesquecíveis”, afirma Griffiths.

Ainda em 2006, temos a pesquisa do psiquiatra norte-americano John Halpern, da Universidade de Harvard, que investigou os efeitos terapêuticos da psilocibina e do LSD em pacientes diagnosticados com uma enxaqueca intensa conhecida como enxaqueca em salvas. 22 dos 26 pacientes em que foi administrada psilocibina e 25 dos 48 em que foi administrado LSD reportaram diminuição dos ataques e alguns até mesmo a remissão por períodos extensos.

Em 2008, os médicos e pesquisadores Juan Sanchez-Ramos e Briony Catlow, da Universidade da Flórida do Sul, iniciaram uma pesquisa afim de investigar a possibilidade de a psilocibina auxiliar o processo de nascimento e desenvolvimento de novas células cerebrais (neurogênese) na área conhecida como hipocampo, responsável pela cognição e memória. O estudo, corrente, ainda não possui publicação.

As modernas frentes de pesquisa nos têm mostrado, com dados promissores, que os psicodélicos possuem uma potencialidade ainda pouco conhecida pelos cientistas e que jamais deveriam ter sido condenados a uma moratória durante longas décadas. Os novos estudos têm inspirado um honesto retorno de alcalóides como a psilocibina aos domínios da ciência e desmentindo a demoníaca imagem pintada pelas jogatinas políticas norte-americanas nos anos 60.


// EFEITOS E RISCOS:

De um modo geral, os efeitos decorrentes do consumo da psilocibina iniciam-se aproximadamente entre 30 a 60 minutos após a ingestão (cogumelos frescos, desidratados ou infusão), e de aproximadamente 15 minutos quando administrada por via intra-venal.

A dose ativa da substância é de aproximadamente 15mg e dura, geralmente, de 4 a 8 horas, tendo o seu pico aproximado cerca de 1 ou 2 horas após o consumo.

Os efeitos psíquicos, assim como para os demais psicodélicos, variam de acordo com o ambiente (condição externa) e o estado de espírito e personalidade (condição interna) do usuário e as experiências ruins e potencialmente danosas são mais freqüentemente observadas entre os usuários recreacionais (ilícitos). Os efeitos, apesar de menos intensos que os provocados pelos outros dois alcalóides expoentes do grupo – LSD e mescalina – são similares aos dos pertencentes à família dos psicodélicos: alterações na percepção visual que podem incluir visões caleidoscópicas e hiper-coloridas; sensibilização sensorial; experiências de despersonalização onde o indivíduo perde a identidade com seu próprio corpo e com os limites do próprio corpo; alteração da noção temporal e espacial; sensação de plenitude consciencial, de unicidade com o universo (cosmovisão); sensações tanto de paz suprema quanto de intenso terror que pode levar a quadros de pânico (má viagem, bad trip); taquipsiquismo (pensamento rápido); pensamento confuso e desordenado; perda do controle emocional etc.



Apesar de podermos delinear um certo universo de efeitos, a definição dos mesmos torna-se essencialmente dificultada devido a natureza subjetiva e idiossincrásica da experiência psicodélica.

Já os efeitos fisiológicos incluem alterações variáveis como o aumento da pressão sanguínea, taquicardia, midríase (dilatação da pupila) e atividades eméticas (vômito).

A psilocibina não é capaz de desenvolver relação de vício com o usuário e não possui toxicidade cerebral suficiente para acarretar problemas, distúrbios ou danos neurológicos. O grande problema encontrado no uso das substâncias psicodélicas não recai em seus mecanismos fisiológicos, mas sim nos efeitos imprevisíveis que esta adição pode causar no indivíduo psiquicamente (principalmente quando utilizada com fins recreativos).

Os cogumelos são conhecidos pelas famosas “viagens sem volta”, mas não há nada nestes fungos que os coloque em maior posição de risco frente a outros psicodélicos, como o LSD. As tais “viagens sem volta”, em fato, são baseadas em desencadeamentos de crises psicóticas severas e prolongadas em pessoas que já possuem histórico ou propensão genética a este tipo de comportamento, e sob a utilização de qualquer psicodélico.


// MECANISMO DE AÇÃO:

Os mecanismo de ação de substâncias como a psilocibina, assim com os de outros químicos deste grupo, apresentam, ainda hoje, uma série de lacunas preenchidas apenas por teorias. Os últimos estudos têm encontrado diversos indícios da natureza química interativa no cérebro humano.

Sabe-se que a psilocibina possui estrutura semelhante aos neurotransmissores cerebrais dopamina, noradrenalina e especialmente a serotonina. Em função de tal afinidade, a molécula liga-se aos mesmo locais (receptores) em que estas substâncias se conectam, onde passam a desenvolver a função de neurotransmissores, neste caso, de origem externa. Os neurocientistas acreditam que a ativação de determinados grupos destes receptores é o mecanismo responsável pelas alterações perceptivas e cognitivas produzidas pela adição destes químicos.


// STATUS POLÍTICO ATUAL:

A psilocibina e psilocina são consideradas drogas ilícitas pelas Nações Unidades, através da Convenção de Substâncias Psicotrópicas, de 1971. Incoerentemente elas pertencem às drogas da escala 1, a mais perigosa e escala da qual fazem parte substâncias cujo uso terapêutico ou medicinal é nulo. Esta convenção foi adotada pela maioria esmagadora dos países no globo, e não há qualquer federação onde a substância não seja ilegal.

A produção e cultivo dos cogumelos produtores de psilocibina, assim como a sintetização, produção, comercialização e consumo da psilocibina ou psilocina são proibidos sob pena de se fazer valer as medidas constitucionais cabíveis em cada federação.

Assim como para outros psicodélicos ilícitos, existe uma população que faz uso recreativo da psilocibina. A dificuldade de encontrar os cogumelos e da até então inexistência de laboratórios clandestinos capazes de sintetizar o alcalóide, tornam o uso recreativo desta substância dificultado.

domingo, 24 de maio de 2009

As Drogas // Mescalina: A Molécula Mágica do Peiotismo



Dos antigos êxtases xamânicos visionários aos relatos de Aldous Huxley ou Carlos Castaneda, a mescalina representa uma das mais velhas substâncias psicodélicas utilizadas pelo homem. Isolada pela primeira vez em 1896 pelo químico alemão Arthur Heffter a partir de uma espécie de cacto – o peiote
– este poderoso e secular alcalóide carrega uma história impregnada de folclore, batalhas, ciência e religião.


A mescalina (3,4,5-trimetoxifeniletilamina), substância pertencente à família das feniletilaminas, é o mais antigo composto químico psicodélico já isolado e sintetizado pelo homem. Antes mesmo do LSD, consagrado como a substância expoente do grupo, invadir os laboratórios e as mentes inquietas de um sem-número de pesquisadores, ela já havia ocupado uma diversidade de frentes de investigação. Aproximadamente 50 anos antes da descoberta do ácido lisérgico pelo químico suíço Albert Hofmann, uma estranha e misteriosa substância foi isolada a partir de um cacto nativo da região norte mexicana e parte dos Estados Unidos.

Arthur Heffter, um químico farmacologista alemão, desenvolvia uma investigação que procurava identificar os princípios ativos do cacto conhecido como peiote (Lophophora williamsii, na época ainda Anhalonium williamsii), uma planta cuja ingestão produzia efeitos alucinógenos e era há muito utilizada por uma diversidade de comunidades indígenas mexicanas e estadunidenses. Durante tal investigação, que só foi possível em função de um primeiro estudo do cacto desenvolvido pelo farmacologista alemão Ludwig Lewin, o cientista pôde isolar uma série de alcalóides: anhalonina, anhanolidina, pelotina, loforina e mescalina. Para a continuidade da pesquisa, Heffer administrou doses dos agentes em experimentos com animais e até mesmo em auto-experimentos. Como resultado dos exames clínicos (que inclusive valeram a Heffer o título de primeiro psiconauta da história) o químico obteve a descoberta da primeira molécula psicodélica conhecido pelo homem: a mescalina. Mais tarde o mesmo químico foi identificado, em menos concentração, em outras espécies, como o cacto San Pedro (Trichocereus pachanoi) e o wachuma (Trichocereus peruvianus), encontrados na América do Sul e Central.



A publicação das pesquisas, em 1896, concedeu a Heffer um notório respeito na comunidade científica da época, e o alemão – primeiro cientista a estudar psicodélicos sistematicamente – abriu as portas dos laboratórios para conseqüentes frentes de investigação. Além do interesse farmacológico, sob o qual, em 1919, o químico austríaco Ernst Späth sintetizou a substância pela primeira vez, a substância também despertou um interesse significativo das ciências humanas. Jaensch, um psicólogo alemão, investigou a mescalina em suas pesquisas sobre a psicologia conhecida como eidética: um braço da psicologia cujo modelo foca-se na identificação de essências da consciência e na análise indissociável à experiência subjetiva. Personalidades científicas como o psicólogo britânico Havelock Ellis, o médico e escritor estadunidense Silas Weir Mitchell e o neurologista e psicólogo germano-americano Heinrich Klüver desenvolveram diversas linhas de pesquisas e experimentos com o composto, representando um avanço científico subsidiado por uma grande onda de interesse investigativo. Toda a gama de novas informações e apontamentos identificados no decorrer deste período foi publicada pelo médico psiquiatra alemão Kurt Beringer na obra Der Meskalinrausch (algo como Os Efeitos da Mescalina), em 1927. A escassez de apontamentos medicinais (medicamentos), no entanto, fez com que o interesse pela substância declinasse.

Embora a mescalina representasse um universo inteiramente novo diante dos olhos da ciência, detinha uma antiga história de íntima familiaridade com um número considerável de comunidades arcaicas de origem indígena em território norte-americano (México e Estados Unidos). Tais comunidades, das quais há manifestações remanescentes contemporâneas, desenvolviam uma relação com a mescalina, através do consumo ritual do cacto peiote (in natura ou na forma de bebidas), cuja existência era anterior à época da colonização colombiana. Há também registros da cultura mescaleira entre povos equatorianos e peruanos, através do cacto San Pedro.

O primeiro relato sobre o peiote, cujo nome origina-se do termo asteca (náuatle) peyotl, pode ser encontrado na obra Historia General de las Cosas de Nueva España, de 1560, escrita pelo cronista da Nova Espanha, o frei franciscano Bernardino de Sahagún. Em tal relato, o autor descreve o uso do cacto pelas tribos Tolteca e Chichimeca: “Há outra planta, que se apresenta como um fruto da terra, se chama peyotl, é branca, se encontra no norte do país; aqueles que a comem ou bebem, tem visões terríveis ou cômicas; a intoxicação dura de dois a três dias; é comumente consumida pelos Chichimecas, pois os mantém acordados e os dá ânimo para lutar e não ter medo, nem sede, nem fome e dizem que os guarda de todo perigo”. Bernardino de Sahagún estimou que a utilização do cacto pelas tribos poderia datar em mais de 2 mil anos.

Esta forma de peiotismo encontrada pelos conquistadores espanhóis caracterizava-se como um complexo comportamento de padrões étnicos e culturais ancestrais onde a figura do xamã – o mestre do conhecimento e dos poderes da tribo – era bastante enfatizada. Em tal configuração de sociedade, o xamã é a fonte da sabedoria transcendental, assim como o personagem que assume o papel do curandeiro – ele detém todo o conhecimento sobre as plantas e sobre como relacionar-se com elas, principalmente quando são utilizadas como portais para realidades extraordinárias, freqüentemente mais valorizadas do que a própria realidade “comum”. Neste contexto, havia uma variedade de mecanismos de consumo do cacto – pasta, infusão, mascagem, além de uma intrincada atribuição de valores a todas as etapas envolvidas (anterior e posteriormente) pelo momento da ingestão: colhimento, feitura etc.



Aos olhos da colonização colombiana, porém, o consumo ritual do peiote encheu-se de significados satânicos. A despeito da profunda carga representada por um antigo e rico sistema de crenças e cultura, a intolerância do clero católico levou os conquistadores espanhóis a proibirem e a combaterem violentamente a utilização cerimonial do cacto. Os índios passaram a ser perseguidos e julgados pelos tribunais da Santa Inquisição como disseminadores da obra do demônio.

Em 1760, aproximadamente um século após a proibição oficial pelo Santo Ofício Espanhol, as denúncias e julgamentos prosseguiam. Os manuais da Inquisição se proliferavam, instruindo aos conquistadores como os processos deveriam ocorrer, e incluíam perguntas com: “Você tem comido carne de homem? Você é um advinho? Tem anunciado eventos futuros mediante a leitura de presságios, interpretando sonhos ou traçando figuras na água? Você tem chupado o sangue de outras pessoas? Você tem caminhado pela noite invocando a ajuda de demônios? Tem bebido peiote ou dado de beber a outras pessoas para descobrir segredos ou o lugar onde se encontram objetos perdidos ou roubados?”. O consumo do peiote ainda resistiu às primeiras e veementes investidas da colonização ocidental, passando a incluir elementos da cultura e religião espanhola como forma de sincretismo: uma tática para a sobrevivência. No entanto, os povos que praticavam o peiotismo passaram por um trágico momento de desfiguração e desintegração.

Como medida para preservar a antiga cultura mescaleira, no final do séc. XIX, algumas tribos onde o peiote desempenhava o papel central nas manifestações religiosas, como os huichóis (descendentes dos astecas), kiowas e comanches, passaram a disseminar o uso do cacto até o sudeste dos Estados Unidos, de onde espalhou-se até mesmo ao território canadense. Há relatos, a partir de 1867, da utilização do peiote inclusive entre tribos apache. Índios como o líder comanche Quanah Parker influenciaram massivamente neste processo.

Este novo peiotismo, já distinto da sua configuração original, fez ressurgir com força o costume de utilizar o cacto no contexto do transcendental, mas invocou novamente a impetuosidade dos missionários. Como única alternativa para não ver completamente dizimada uma manifestação legítima e representante de uma cultura tão antiga cujas raízes estavam sendo duramente arrancadas, diversas tribos, inclusive através da articulação política com os descendentes integrados à cultura “branca”, optaram por uma unificação: nascia, em 1906, a Igreja Nativa Americana.



Sob o dispositivo constitucional que garantiu, e garante até os dias de hoje, o direito ao uso do peiote enquanto ritual religioso, a Igreja Nativa Americana tornou-se a mais forte manifestação do uso contemporâneo remanescente das culturas arcaicas indígenas norte-americanas – e transformou-se na religião oficial de aproximadamente 70 tribos nativas.

Após a conturbada história de sobrevivência da utilização do peiote e dos primeiros estudos científicos através das quais a mescalina foi identificada e investigada, o composto voltou às páginas da história apenas a partir da segunda metade do séx. XX.

A descoberta da dietilamida do ácido lisérgico por Albert Hoffman, em 1943, iniciou um fervor científico interessado nas pesquisas sobre um grupo de substâncias até então carregado de lacunas e promessas: os psicodélicos. Em um curto espaço de tempo uma variedade de alcalóides, entre eles a mescalina e a psilocibina – substância encontrada em algumas espécies de cogumelo – invadiram os laboratórios de maneira espetacular e tornaram-se protagonistas de linhas e linhas de investigação sistemática da ciência moderna, principalmente daquelas ligadas à psiquiatria e psicologia. Pesquisadores como o psiquiatra norte-americano Humphrey Osmond, que inclusive supervisionou o político Christopher Mayhew em um teste com mescalina televisionado em 1955, desenvolveram experimentos onde puderam verificar a proximidade molecular entre a mescalina e a adrenalina, fato que deu novo ânimo à análise dos distúrbios psicóticos à luz da natureza psicodélica.

Duas publicações, mundialmente conhecidas, foram, contudo, as principais responsáveis pela divulgação do químico oriundo do peiote. As Portas da Percepção (The Doors of Perception), de Aldous Huxley, em 1954, e A Erva do Diabo (The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge), de Carlos Castaneda, em 1968, levaram a mescalina ao conhecimento do cidadão comum nos quatro cantos do globo.

Em As Portas da Percepção, o ensaísta filosófico e autor inglês Aldous Huxley, após ter sido apresentado à molécula por Osmond, faz um diagnóstico pormenorizado de seus auto-experimentos com o alcalóide. Baseado nestas observações em constante cruzamento com as novas informações sobre a emergente epistemologia dos psicodélicos, Huxley traça um ensaio filosófico delineado pela análise dos estados alterados de consciência. Tal análise leva o autor à teoria que dá nome à obra: agentes químicos como a mescalina e o LSD possuiriam a capacidade de expandir os limites da percepção humana, que se encontram naturalmente fechados por um mecanismo de filtros. Tais drogas ligariam a chave da consciência abrindo as “portas” para uma percepção de mundo diferenciada em experiências capazes de transformar significativa e positivamente a relação do homem com o mundo.

Já em A Erva do Diabo, Carlos Castaneda, um antropólogo brasileiro radicado nos Estados Unidos, traça uma análise detalhada de suas próprias experiências iniciatórias vividas sob a tutela de um velho índio brujo de tradição mescaleira – Don Juan. Castaneda acaba por afastar-se da investigação antropológica, visto que ele mesmo está incluído no objeto de estudo, mas nos traz os registros de uma cultura xamânica e ancestral com uma riqueza ímpar. Durantes suas experiências, Castaneda é apresentado a três diferentes plantas do poder com propriedades psicodélicas: o cogumelo, a erva-do-diabo (trombeta, datura) e o peiote – tratado por Don Juan como uma respeitável e poderosa entidade: o Mescalito.



Nos anos 50 e 60, durantes os quais as moléculas psicodélicas lideraram diversas séries de investigação, a mescalina, porém, não desempenhou papel tão expoente quanto outras substâncias como o LSD e a psilocibina. Durante as quase três décadas que se seguiram à completa abolição das pesquisas científicas (ação complementar à violenta tática governamental de Guerra às Drogas e resposta às indagações e movimentos da Contracultura), a análise da mescalina pela ciência resumiu-se a observações antropológicas da cultura mescaleira.

A partir dos anos 90, no entanto, podemos verificar uma retomada investigativa dos psicodélicos (ver matéria: O Renascimento da Pesquisa Psicodélica). Dentro deste novo panorama, a mescalina tem voltado às frentes de estudos, dentre as quais a do psiquiatra norte-americano John Halpern, da Universidade de Harvard. Halpern desenvolve uma pesquisa onde procura estabelecer o uso terapêutico da substância em pacientes diagnosticados com alcoolismo ou outros tipos de drogadição. O psiquiatra ainda espera pela aprovação de um estudo da mescalina no tratamento da ansiedade em pacientes terminais com câncer, trabalho que já vem sendo desenvolvido pelo psiquiatra Charles Grob, da Universidade da Califórnia, com a psilocibina.


// EFEITOS E RISCOS:

Os efeitos da mescalina iniciam-se após cerca de 60 a 90 minutos após a ingestão (chá, pasta, mascagem ou consumo dos botões de peiote – como são conhecidas as fatias desidratadas do cacto). Já os efeitos da mescalina administrada por via intravenal iniciam-se entre 10 e 20 minutos após a aplicação. Os efeitos desencadeados pelo consumo do peiote possuem algumas distinções dos efeitos produzidos pelo mescalina pura, visto que há uma série de outros alcalóides psicoativos no cacto.

A dose ativa é de cerca de 150mg (a mescalina é aproximadamente 4.000 vezes menos potente que o LSD – isto é, sua dose ativa é 4.000 vezes maior do que a dose ativa do ácido lisérgico).

A gama de alterações cognitivas (efeitos psíquicos) produzidas pela adição do composto, assim como para os demais psicodélicos, varia de acordo com o ambiente (condição externa) e o estado de espírito e personalidade (condição interna) do usuário: as experiências ruins e potencialmente danosas são freqüentes entre os usuários recreacionais (ilícitos) enquanto o uso positivo é sumamente verificado no contexto religioso (lícito). Os efeitos são similares aos efeitos desencadeados pelos químicos pertencentes ao mesmo grupo: alterações na percepção visual que podem incluir visões caleidoscópicas, hiper-coloridas e zoons em texturas ou padrões de formação dos objetos; sensibilização sensorial; experiências de despersonalização onde o indivíduo perde a identidade com seu próprio corpo e com os limites do próprio corpo; alteração da noção temporal e espacial; sensação de plenitude consciencial, de unicidade com o universo (cosmovisão); sensações tanto de paz suprema quanto de intenso terror que pode levar a quadros de pânico (má viagem, bad trip); taquipsiquismo (pensamento rápido); pensamento confuso e desordenado; perda do controle emocional etc.



Apesar de podermos delinear um certo universo de efeitos, a definição dos mesmos torna-se essencialmente dificultada devido a natureza subjetiva e idiossincrásica da experiência psicodélica.

Há dois trechos, no filme Blueberry (2004), que simulam uma experiência vivida através do consumo de uma infusão de peiote no contexo religioso de uma tribo apache (chirikahua). Os vídeos podem ser conferidos aqui: Peyote: Trechos Intrigantes do Filme Blueberry

Já os efeitos fisiológicos incluem alterações variáveis como o aumento da pressão sanguínea, taquicardia, midríase (dilatação da pupila) e atividades eméticas (vômito).

A mescalina não é capaz de desenvolver relação de vício com o usuário e não possui toxicidade cerebral suficiente para acarretar problemas, distúrbios ou danos neurológicos. O grande problema encontrado no uso de substâncias como a mescalina não recai em seus mecanismos fisiológicos, mas sim nos efeitos imprevisíveis que esta adição pode causar no indivíduo psiquicamente (principalmente quando utilizada com fins recreativos).


// MECANISMO DE AÇÃO:

Os mecanismo de ação de psicodélicos como a mescalina, assim com os de outros químicos deste grupo, apresentam, ainda hoje, uma série de lacunas preenchidas apenas por teorias. Os últimos estudos têm encontrado diversos indícios da natureza química interativa no cérebro humano.

Sabe-se que a mescalina possui estrutura semelhante aos neurotransmissores cerebrais dopamina, noradrenalina e serotonina (especialmente à dopamina, enquanto o LSD, por exemplo, assemelha-se mais à serotonina). Em função de tal afinidade, a molécula liga-se aos mesmo locais (receptores) em que estas substâncias se conectam, onde passam a desenvolver a função de neurotransmissores, neste caso, de origem externa. Os neurocientistas acreditam que a ativação de determinados grupos destes receptores é o mecanismo responsável pelas alterações perceptivas e cognitivas produzidas pela adição destes químicos.


// RELATOS:

Richard Heffern, autor de Secrets of the Mind Altering Plants of Mexico, de 1974, faz, na obra, um relato detalhado sobre uma experiência com mescalina:

“Queria que minha primeira experiência com peiote fosse perfeita em cada detalhe, assim a planejei cuidadosamente o quanto pude. Meu colega e eu decidimos dormir a maior parte do dia para estar alerta durante a noite. Deliberadamente escolhemos uma noite de lua cheia para não precisar de luz artificial. Aproximadamente uma hora antes de entardecer, ingerimos cada um o equivalente a 500mg de mescalina. Aproximadamente 40 minutos depois caminhei costa abaixo até um campo onde tive a estranha sensação de que seria muito desrespeitoso passar perto do cacto sem o saudar. Neste momento a planta era tão importante como eu. Ambos – a planta e eu – estávamos nesta terra juntos, e me embargava um sentimento de que existia um vínculo entre nós. Estávamos "nisto" juntos. Durante toda a experiência senti um regozijo pronunciado. Sentia que estava parado mais ereto do que de costume; sentia um grande orgulho por ser uma criatura vivente. Nestes momentos, a consciência de estar vivo me parecia suficiente para ser completamente feliz. Ao mesmo tempo, parecia que me restava muito pouco do ego; sentia que era uma pequena parte de um todo muito maior. Estava na Terra para viver, experimentar e aprender. O mundo ao redor era um grande lugar sagrado - um lugar que devia ser reverenciado e respeitado. Me pergunto se as coisas teriam sido diferentes caso estivesse rodeado por um ambiente urbano em que prevalecessem as coisas feitas pelo homem. De alguma maneira, senti um grande desamparo. Me senti como uma criança num mundo estranho, pouco familiar e fascinante. Senti que estava aprendendo tudo de novo. O ápice da experiência pareceu vir depois de quatro horas, apesar da dificuldade em estar consciente do tempo. Em algum ponto, parecia que eu podia sentir a rotação da Terra sobre seu próprio eixo. Era uma noite de neblina, e esta neblina parecia tomar a forma de um enorme dragão, iluminado pela lua. Em algum ponto, um tipo de retrospectiva se tornou no aspecto dominante da experiência. Era como se a minha mente estivesse buscando avidamente encontrar o significado da experiência completa. Eu tinha um conhecimento intuitivo de que a experiência tinha um grande significado e eu não estava sendo capaz de captar a totalidade do seu significado. Nos dias que se seguiram, pensei muitas vezes em tudo o que havia passado, já que se leva algum tempo para compreender tudo.”

Neste outro relato, encontrado no livro PiHKAL: A Chemical Love Story (1991), dos autores Alexander e Ann Shulgin, um viajante anônimo descreve sua experiência:

“Eu estava esperando ter um dia de excitação visual, mas parece que fui incapaz de escapar da auto-análise. Aprendi muitas coisas sobre eu mesmo e sobre o meu interior. Comecei a perceber um ponto, uma luz branca brilhante, que parecia ser por onde Deus estava entrando, e era inconcebivelmente maravilhoso percebê-la e estar cercado por ela. E eu desejava, com todo o coração, o que se aproximava. Pude entender por que as pessoas sentam e meditam durante horas sozinho com a esperança de que um pouco desta luz as contate. Supliquei que ela continuasse a me circundar. Mas ela não o fez. Desvaneceu-se e não regressou nesta forma particular durante o resto do dia. Escutando o Requiem, de Mozart, encontrei magníficos ápices de beleza e glória. O mundo estava tão distante de Deus, e nada era mais importante do que voltar a entrar em contato com ele. Pude ver como criamos o fiasco nuclear para amenizar a existência no planeta, como se fosse só através das armas e da aniquilação completa que as pessoas pudessem começar a se preocupar com os demais. Um efeito destacável desta droga é a extrema empatia que te faz sentir pelas coisas pequenas: uma pedra, uma flor, um inseto. Creio que seria impossível levar alguém a cometer um ato destruidor sobre alguém ou algo neste estado, nem se quer se pode cortar uma flor. Terminei a experiência sentindo que havia passado por muitas coisas, e que havia aprendido algo importante. Me sentia maravilhosamente livre.”


// STATUS POLÍTICO ATUAL:

A mescalina é considerada uma droga ilícita pelas Nações Unidades, através da Convenção de Substâncias Psicotrópicas, de 1971. Devido à aceitação internacional da convenção, é uma substância proibida em todos os territórios mundiais, exceto sob condições rituais e religiosas, como o contexto da Igreja Nativa Americana, onde os adeptos possuem o direito garantido de utilizar o peiote em suas cerimônias.

A produção e cultivo do peiote, assim como a sintetização, produção, comercialização e consumo da mescalina são proibidos sob pena de se fazer valer as medidas constitucionais cabíveis em cada federação.

Apesar do atual status, a mescalina tem sido consumida ilegalmente por uma diversidade de grupos urbanos. A droga (street mescaline) é produzida e sintetizada em laboratórios ilegais e inapropriados para os processos químicos implicados, oferecendo, assim, o risco de conter substâncias perigosas e outros tipos de impureza, além de já oferecer os riscos normais enquanto substância utilizada para fins recreativos.

domingo, 17 de maio de 2009

Matérias // O Renascimento da Pesquisa Psicodélica



Depois de mais de 20 anos condenados a uma silenciosa moratória científica, os psicodélicos dão claros sinais de que estão saindo das sombras destruidoras da desinformação para cair, novamente e com seriedade, nas rotas das pesquisas e investigações.

// por Ciro MacCord

Há aproximadamente 3 décadas as drogas psicodélicas foram completamente banidas dos laboratórios científicos, onde, pelas mãos de inúmeros especialistas de diversas áreas, representaram o descortinamento de novos horizontes nos estudos da psique, da mente e da consciência humana – além de apresentarem novíssimos potenciais terapêuticos. Antes que observações conclusivas pudessem ser construídas, antes mesmo do potencial destas pesquisas ser plenamente explorado, no entanto, os psicodélicos foram arrancados, à base de muita pressão e violência políticas, das mãos de uma vanguarda científica em pleno desenvolvimento.

A partir daí, o que se viu foi a morte repentina de uma série de programas oficiais dedicados ao estudo destas drogas. Linhas e linhas de pesquisas promissoras, de novos apontamentos e interconexões de informações foram imediatamente abortados. Os últimos projetos investigativos sobreviventes, entre eles o do Centro de Pesquisa Psiquiátrica de Maryland, nos EUA (do qual Stanislav Grof fazia parte), cederam, enfim, às exigências de uma nova política que viria a se disseminar internacionalmente – a conhecida War on Drugs (Guerra às Drogas)
– inaugurada pelo governo americano no final da década de 60 como feroz resposta a um movimento que vinha questionando com grande força a direção da hegemonia capitalista americana – a Contracultura.

Em 1971, o LSD e outras drogas estavam absolutamente desconectados da ciência, e haviam se transformado, através das investidas governamentais, nas mais torpes substâncias já encontradas na face da terra, em detrimento de sua vasta contribuição e potencialidade de subsidiar importantes pesquisas e respostas. O LSD, por exemplo, foi posto ao lado de drogas devastadoras como a heroína nas escalas mundiais de danos, mesmo tendo sido provada a sua incapacidade de desenvolver relação de vício e mesmo os seus mecanismos de atuação no cérebro humano jamais terem sido completamente desvendados.

Durante 20 anos, aproximadamente, o que se ouviu foi um absoluto e agoniante silêncio sobre as drogas psicodélicas, ao mesmo tempo em que a política da Guerra às Drogas colhia as suas infindáveis frustrações: do narcotráfico ao abuso ilegal de substâncias que jamais parou de acontecer nos 4 cantos do planeta, e com mais intensidade – e quase que sarcasticamente, em território norte-americano. Os psicodélicos, durante este extenso período, deixaram o seu status de droga hippie para, definitiva e infelizmente, tornarem-se drogas recreativas firmemente estabelecidas entre os jovens até os dias de hoje. E após o nascimento da cultura eletrônica eles tomaram força ainda maior no convívio ilegal e inconsciente com as populações ao redor do planeta.

Hoje, no entanto, e para a satisfação da investigação honesta, estas drogas têm retornado, vagarosamente, ao status de escopo científico reconhecido. Como ponto de partida deste renascimento podemos citar Rick Strassman, um pioneiro psiquiatra americano, pesquisador na área clínica de psicofarmacologia. Strassman foi o primeiro cientista a obter permissão do FDA norte-americano (Food and Drug Administration), após 20 anos, para desenvolver estudos científicos clínicos com psicodélicos. Particularmente interessado nas potencialidades do DMT (dimetiltriptamina), uma poderosa substância psicoativa e princípio ativo de bebidas sacramentais
– como a ayahuasca – utilizadas há séculos por tradições xamânicas, Strassman iniciou, em 1990, uma investigação sobre as implicações da substância na mente humana, assim como potencialidades terapêuticas e relações entre os estados alterados desencadeados por ela e os desencadeados em universos religiosos e transcendentais.

O DMT é uma substância endógena (produzida pelo próprio corpo) do cérebro humano, produzida em baixas doses, e este dado foi promissor na conexão de informações sobre os processos bioquímicos cerebrais ligados a estados não comuns de percepção, como experiências de quase morte, processos oníricos, êxtase religiosos, estados meditativos, práticas xamânicas, entre outros.




Strassman publicou boa parte de suas investigações e experimentos biomédicos com DMT na obra DMT: The Spirit Molecule (sem tradução no Brasil, DMT: A Molécula Espiritual), e continua sua jornada por respostas e busca de um novo panorama científico à cerca dos psicodélicos. O psiquiatra já trabalhou também com outras substâncias como a psilocibina – princípio ativo dos cogumelos pertencentes ao gênero Psilocybe.

Após o pioneirismo de Strassman, as portas, antes definitivamente trancadas à entrada dos psicodélicos nos meios científicos, deixaram um pequeno vão para que posteriores linhas de pesquisa pudessem ocorrer. David E. Nichols, um importante químico farmacologista americano e considerado, atualmente, uma das maiores referências mundiais na pesquisa psicodélica, pôde retornar à investigação do LSD e dar continuidade a estudos que vinha desenvolvendo desde o final dos anos 60. Nichols é responsável por uma série de artigos publicados onde procura identificar os mecanismos cerebrais desencadeados pela adição de drogas como o ácido lisérgico, a mescalina e o MDMA (um tipo de anfetamina com propriedades psicodélicas; ecstasy), e tem sido, nos últimos 15 anos, uma importante influência para o estabelecimento dos interesses científicos no universo dos psicodélicos.

Além dos alcalóides clássicos – mescalina, LSD, psilocibina e DMT, outras substâncias tem sido abarcada no grupo de agentes psicodélicos – entre elas a quetamina, um anestésico dissociativo. A quetamina tem se tornado a protagonista de uma diversidade de estudos sobre propriedades terapêuticas em seres humanos. Investigações promissoras, como a desenvolvida pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, em 2006, ou pelo psiquiatra russo Evgeny Krupitsky, têm apontado para efeitos positivos no tratamento de distúrbios psíquicos como a depressão.

Ainda em 2006, dois estudos, desenvolvidos pelo psiquiatra Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, e pelo neurocientista Roland Griffths, da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, resultaram em dados animadores sobre os efeitos clínicos da psilocibina. Estas pesquisas, que adminstraram doses do alcalóide oriundo dos cogumelos do gênero Psylocibe em pacientes saudáveis e em voluntários diagnosticados com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), relataram mudanças de humor e percepção de mundo positivas no primeiro caso, e redução dos sintomas nos pacientes no segundo. Outro estudo à cerca da psilocibina, desenvolvido pelo psiquiatra Charles Grob, da Universidade da Califórnia, ainda apontam para efeitos promissores na redução do stress e dor em pacientes com câncer em fase terminal.

Recentemente, também, outro psiquiatra norte-americano, Michael Mithoefer, iniciou uma investigação do MDMA em casos de ansiedade e stress pós-traumático. Além dos estudos citados, substâncias como a ibogaína, quetamina, psilocibina e DMT também vem sendo investigadas, em diversos países, no tratamentos de dependências químicas como o alcoolismo.

Há pouquíssimo tempo, em julho de 2008, finalmente foram permitidos estudos humanos com LSD nos laboratórios Suiços. O psiquiatra Peter Gasser obteve autorização do governo suíço – através do auxílio da iniciativa da MAPS (Associação Multidiciplinar para Pesquisas Psicodélicas), para iniciar uma pesquisa das propriedades terapêuticas do LSD em pacientes com quadro clínico próximo da morte. Atualmente, encontramos também uma frente de pesquisa utilizando o LSD e a psilocibina, liderada pelo psiquiatra John Halpern, na Universidade de Harvard. Halpern está investigando o uso destes alcalóides no tratamento de enxaquecas, e os resultados devem ser publicados ainda este ano.

Indo de encontro às satanizadas preconizações alçadas aos quatro ventos pela política proibicionista e violenta da Guerra às Drogas, os psicodélicos tem demonstrado, nos últimos anos e em inúmeros casos, utilizações positivas e eficazes em tratamentos psicoterapêuticos e psicanalíticos, assim como na investigação da consciência humana. Um importante momento de lucidez científica parece ir, aos poucos, retirando os psicodélicos das escuras masmorras da falta de informação e do desconhecido, para enfim trazê-los à luz do conhecimento sincero e, acima de tudo, francamente interessado em expandir seus horizontes e desafiar os grandes mistérios do conhecimento humano.